O EMPRESÁRIO QUE GUARDAVA LIVROS


I


Eu já sentei no chão do banheiro, enquanto via minhas lágrimas se misturarem com a água que escorria pelo chuveiro. Já corri tanto até não agüentar mais. Subi no telhado da vizinha querendo ver a filha dela tomar banho. Já ouvi tantos “nãos” da minha mãe que me tranquei no quarto sem querer falar mais com ninguém. Briguei com o meu pai porque ele não queria que eu fosse a uma festa. Mandei meu avô ir cantar coco só porque ele não me deu dinheiro para comprar um sorvete. Colecionei gibis de super-heróis, selos, botões, tampinhas de refrigerante, sobretudo àquelas que traziam os personagens da Disney e quase que ela ficou completa se tivesse encontrado o Pato Donald.


Um dia, na primeira série, quando voltava para casa, foi acometido por uma diarréia. Não consegui segurar. A escola não ficava muito longe de casa, mas não deu tempo. Andei quase trocando as pernas, enquanto sentia o melado escorrer pelas coxas. Fui chacota de meus irmãos quando cheguei em casa pingando coco. Minha mãe me jogou embaixo do chuveiro e me lavou. Foi um vexame. Sempre tive estes intempestivos intestinais. Acho que meu intestino era frouxo, não agüentava muita comida.

Eu era um aluno esforçado. Estudava em escola pública. Tirava notas sempre na média. Nunca fiz nada de extraordinário até a quarta série primária. Digo até a quarta série porque foi nela, de verdade, que eu compreendi como podia ser alguém na vida. Entretanto, antes de ser o que eu sou, eu conheci a dor, o amor, a decepção, o desespero, a traição, a falsidade. Atributos que a vida nos apresenta e, se você não passa por elas, dificilmente irá compreender o sentido de tudo que lhe cerca.

Aos dez anos meu pai me deu um livro. Numa época em que eu pensava em ser o Super-Homem ou subir pelas paredes feito o Homem Aranha, meu pai, no meu aniversário, me dá um livro de presente. Sorri, peguei o livro e, furioso – não na frente dele – corri para o quarto peguei o bendito e joguei embaixo da cama.

Eu não gostava de ler. Quando lia, a professora quase não ouvia nada. Eu lia tão baixo, que parecia estar sussurrando. Foi numa daquelas leituras coletivas na sala de aula, que lendo baixo, a professora me deu algumas guarda-chuvadas na cabeça exigindo que eu lesse direito. Fiquei com raiva. Não queria mais ler.

Meu pai, então, acreditando estar fazendo a coisa mais legal do mundo, me dá um livro de presente ao invés do Ferrorama que eu via passar na propaganda da TV todos os dias. Eu sonhava com aquela ferrovia de brinquedo, com uma locomotiva a vapor, vários vagões juntos, como o vagão de carvão, de carga, de combustível, de passageiros.

Aquele livro ficou embaixo da minha cama uns três meses. Um dia, quando voltei da escola e joguei a mochila sobre a cama, lá estava ele, sujo pela poeira, mas inteirinho, em cima da cama. Antes de tomar café, minha mãe dissera que havia encontrado ao arrumar o quarto e me disse que meu pai tinha perguntado se eu havia lido. Aquilo me preocupou. Afinal, era um presente e se ele perguntasse sobre a história, sobre se eu tinha gostado ou sobre algum daqueles personagens? Voltei para o quarto pensativo, esperando que a qualquer momento fosse surpreendido pelo papai questionando sobre o livro. Foi aí que ao me deparar com aquele menino em cima de um planeta com uma flor como companhia que eu resolvi ler.


II



Ele me ensinou que o essencial era invisível aos olhos e que eu me tornaria responsável, para sempre, por tudo que um dia em viesse a cativar. Ensinou-me ainda que mais que ter dinheiro ou qualquer outra coisa, bom é ter amigos. Me fez ficar pensando se um carneiro, em algum lugar do universo, tinha ou não comido a rosa, toda vez que eu olhava para as estrelas. Fiquei com vontade de viajar pelo deserto, na África, e ficar debaixo daquela estrela esperando o menino dos cabelos de ouro, encontrá-lo e escrever para o autor dizendo que o Pequeno Príncipe tinha voltado. E eu descobri tudo isso apenas em um único livro.


III



Depois de ler o Pequeno Príncipe, eu saí do quarto correndo para contar ao meu pai tudo que eu havia descoberto. E assim, ao invés de ser surpreendido por ele, eu o surpreenderia contando-lhe aquela história fantástica do menino viajante e indagador. Quando virei o corredor, encontrei minha mãe chorando, na sala, sobre o sofá, sendo consolada pela minha irmã mais velha. Meu outro irmão estava encostado no sofá, com os olhos vermelhos, abraçado pela minha tia. Minha mãe ergueu a cabeça e abriu os braços me chamando. Quando ela me abraçou, eu vi a sala girar. E então, mamãe disse em voz baixa:

“Seu pai foi para um planeta distante”.

Eu não quis saber qual foi o planeta. Só pedi a Deus que o menino dos cabelos de ouro guiasse meu pai pelo universo sem fim. Foi a primeira vez que eu corri sem vontade de parar.



IV


Eu repeti a quarta série por dois motivos: meu pai tinha morrido e não queria mais receber guarda-chuva na cabeça só porque lia baixo. Minha mãe me tirou da escola pela segunda razão e por pouco não deu umas guarda-chuvadas na cabeça de dona Magnólia também, minha professora da quarta série.

Mudamos de bairro e eu mudei de escola. Minha nova professora toda vez que dava uma aula, parecia contar uma história. A escola ficava na periferia, perto da favela que a gente morava. Mas, era organizada. A diretora comemorava os aniversariantes do mês e ainda distribuía bombons e sorvetes para toda a turma.

A professora organizou uma gincana bacana com a turma. O aluno que conseguisse ler mais de três livros numa semana ganharia um fim-de-semana no Iate Clube do município, tudo por conta dela. Eu, que detestava livros, lá estava viajando naquelas histórias de Júlio Verne e Monteiro Lobato. Li Vinte Mil Léguas Submarinas, Reinações de Narizinho, e Emília no País da Gramática e de quebra reli O Pequeno Príncipe. Mas, não bastava dizer que leu os livros, era preciso ir até a frente da turma e contar tudo que tinha lido.

A vontade era tanta de tomar banho de piscina, comer num restaurante chique e brincar no parquinho do Iate Clube que eu não contei conversa. Corri para a frente da sala e comecei a falar. A princípio, estava quase sussurrando, mas depois que a professora disse para contar como se estivesse na história, a boca abriu e eu não quis parar mais. Falei quase a aula inteirinha, até a hora de tocar o sino para o recreio.

Depois daquele dia todos quiseram conhecer as aventuras escritas por Monteiro Lobato e Júlio Verne. Lembro-me ainda de ter visto lágrimas nos olhos da professora quando eu contei a história do Pequeno Príncipe e de como eu imaginava ver meu pai com ele navegando pelas estrelas.

Fiquei conhecido naquela escola como “o menino que contava histórias”. No fim do ano, ganhei um montão de livros bacanas. Cada livro que eu lia, sempre ficava alguma coisa. Fui vencendo as dificuldades que foram se apresentando na minha casa, na escola, na rua, lendo os livros. Certa vez, escapei de uma briga por causa de uma história que eu li. Alguns meninos me achavam chato, porque tirava notas boas e ficava sempre no grupo das meninas bonitas. Eles então me esperaram na saída da escola e planejaram me surrar, para que eu soubesse quem dava as ordens naquele lugar.

- Escuta aqui, pivete. Você se acha o tal, não é? Pensa que pode tudo com as meninas só porque ler um pouco mais que nós? – Disse o grandalhão que usava uma corrente de prata que parecia mais pesada que o pescoço dele.

- Você acaba de estabelecer um conflito, meu amigo. Não há nada que prove que eu me acho, nem tampouco que queira ser melhor que vocês. Eu estudo mais, porque quero ser alguém na vida. Sei mais, não porque sou mais esperto, mas porque leio mais. Se você ler mais, certamente você também saberá mais. Que vantagem você terá em me surrar pra mostrar quem você é, se todos já sabem? Quer se mostrar para alguém, diga a ela o que você sente, não como você faz.
O grandalhão ficou me olhando tentando entender.

- Você tá me zoando, cara? – Ele bradou.
- Não, estou querendo apenas ser seu amigo. – E estendi a mão.

Por pouco o outro estendeu a mão também. Mas, ele achou que a força era mais importante que o diálogo. Resultado: eu terminei o ginásio, ele abandonou a escola.


V



Meu quarto era também minha biblioteca. Nossa casa era pequena, não havia muito espaço. Então, construi umas prateleiras e fui guardando os livros que ganhava e que consegui comprar quando comecei a estagiar no Ensino Médio. À noite, quando dobrava o travesseiro e pegava um livro novo para ler, eu olhava para as prateleiras repletas de livros e pensava comigo:
E depois? Faço o que com todos vocês?

Eu estava diante dos autores, das histórias, dos contos que me ajudaram a chegar onde cheguei. Não podia ficar com eles só pra mim. Eu precisava sair dali e contar para todo mundo que meus melhores amigos me ensinaram a vencer.

Assim, quando terminei o Ensino Médio montei uma biblioteca comunitária no bairro, que funcionou na sala de casa. Depois, passei no vestibular, fechei a biblioteca, porque precisava pagar os estudos. Mas, a ideia de compartilhar aqueles ensinamentos não me saía da cabeça. Resolvi fazer Administração. E foi o que eu fiz.

(CONTINUA...)

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