POEMA SEM POESIA


O grande poeta Fernando Pessoa imortalizou um verso que acusa o poeta de ser um fingidor. “Finge tão completamente que chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente.” Talvez, esse não seja um dom somente dos poetas, mas, de todos os artistas. Sobretudo, os artistas de Teatro.

Entretanto, hoje não vou escrever sobre Teatro. Vou falar de poesia. O título desta coluna remete a um poema de Nivaldo Melo, escrito em abril de 2002. Não conheço Nivaldo, mas, fui apresentado a ele através de seus versos pelo meu amigo e irmão, José Teles. Um ávido leitor e colaborador deste jornal, entusiasta da cultura e apreciador da boa literatura.

Pois bem, Nivaldo Melo é um desses poetas que cativa a gente pela simplicidade de seus versos que falam diretamente ao coração. É um homem que “fala com Deus” e sente-se pequeno diante da tragédia humana ao ter uma “visão estarrecida” do nosso querido planeta onde “tombam seres providos de alegria, num contra-senso, em volúpia fria, neste desprezo aos ideais mais puros!”

O poeta percorre pela infância, lembra do sertão e seu povo sofrido “em notado afano”. Como ele mesmo diz:
“Vê-se euclidiano
Um timbre espartano...
- Zabelê zanzando,
Perdiz no seu passo
Em lento compasso,
De modo tão lasso,
Piando... piando.”
Descreve com sutileza os gestos da mulher virtuosa e ressalta a sua beleza “de claro fulgor, em franca harmonia ao leve frescor dos dias amenos”. Ensina-nos, com sua poesia a “lição do perdão”, nos mostra o retrato da “mendicância” e, abstrato, titula alguns de seus poemas de “Mesmo Assim”, “Depois” e “Reflexão” afirmando, sem meias palavras que:
“Tudo hoje é antítese do que quero
Se apenas só tenho o que verbero
Num íntimo pesar do inconformismo”.

Pois é, Nivaldo, a “poesia é hoje a álgebra superior da metáfora”, já dizia José Ortega y Gasset. Se há poema sem poesia, certamente – e você há de concordar comigo - não haverá poesia sem um poema. Mesmo que falemos com as estrelas e reconheça Deus como nosso Criador. Obrigado, Teles, por ter me apresentado Nivaldo Melo. É bom saber – e isto é o poeta quem diz - que:
“Neste sofrimento a dor desafia
O sono plácido de quem escala
Guapos escalões do poder que exala
As leis que tornam-se já esmaecidas!...
Saudosos risos em ternos impulsos
São lembranças de benfazeja esfera
Quando malgrado vai crescendo a fera
Em cada canto a cruciar as vidas”.

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