quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

TRÊS PEÇAS DE TEATRO EM E-BOOK JÁ ESTÃO NA AMAZON

Já estão disponíveis na Amazon três peças de teatro para jovens e adultos. Elas foram lançadas este mês. Adquira no site da Amazon





quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

A HORA DO CONTO

CHEIRO DE LIVRO NOVO
Pawlo Cidade

Imagem da internet

"Sua casa não cheirava a fumaça de fogão de lenha, nem a terra batida, como a casa de dona Perolina; muito menos a gardênias com aquele aroma doce e intenso que sempre aflorava nos fins de tarde na casa de dona Maria José. Sequer lembrava a fragrância forte da dama-da-noite, as flores do jardim de dona Antonieta. A casa de Emílio Laureano tinha um cheiro diferente. Um cheiro de livro novo".


“Ao sentir o cheiro de um livro 
apenas e se puder devore-o...”
Oscar de Jesus Klemz



OS MORADORES MAIS VELHOS do distrito diziam que ele tinha sido escritor quando jovem. Mas ninguém nunca encontrou sequer um exemplar de seus vinte e três livros publicados. Para os mais moços, o velho Emílio Laureano, primo-irmão do médico Napoleão Laureano, morto em 31 de maio de 1951, que dava nome a principal rua do distrito, não passava de um idoso, contador de causos, que saía todas as tardes para ver a passagem da cobra gigante no Rio Almada. 
Dona Antonieta, avó de Robertinho, saiu com uma conversa que Seu Emílio possuía uma estreita ligação com a serpente. Ela mesma jurou ter visto, numa tarde de 28 de dezembro, Seu Emílio acariciando a cabeça da víbora às margens do rio. Muitos disseram que dona Antonieta já não governava muito bem seus pensamentos, porém, ninguém duvidava da existência da cobra, já que bois, cavalos e cabras de vez em quando sumiam da noite para o dia, sem deixar vestígios. 
No entanto, Lili Costureira, tia de Robertinho, afirmava que era preferível que a serpente comesse os animais que as crianças do povoado. Nada mais aterrador que ver um dos seus filhos ser engolido vivo pela cobra.     
Na casa de Emílio não havia sequer uma estante. Muito menos um livro. Era uma casa pequena de um quarto, com uma sala-cozinha. Mal dava para caminhar no espaço. No centro da sala, uma mesa pequena com dois jarros, sem flores, e um buda esculpido em madeira, curvado sobre os joelhos em oração; uma espécie de abajur em forma de anjo estava entre dois porta copos de porcelana com detalhes turcos; um porta treco e um jarrinho com um pequeno pé de arruda; ao lado, encostado à parede, uma mesa de plástico, com um pequeno presépio de barro, iluminado com lâmpadas pequenas que piscavam ao lado de uma árvore de natal feita de um pequeno galho seco, coberta de algodão com bolas de vidro antigas, bem idênticas àquelas dos anos 50; dois presentes pequenos bem embrulhados, uma bola de cristal, com a imagem de uma vila coberta de neve.
Em frente à mesinha do centro estava a TV, sobre um tronco de madeira, com uma tábua plana envernizada, bem aparelhada, segurando o aparelho. Mais abaixo, dois outros suportes, um a direita e outro a esquerda, também planos, davam destaque a miniaturas de animais de madeira: um elefante, virado na direção da parede, um hipopótamo e uma onça.
Do lado esquerdo da sala se localizava a cozinha. As panelas estavam penduradas, harmonicamente, sobre uma tábua lisa que servia de estante para apoiar os condimentos e os grãos, bem como algumas vasilhas de outros alimentos como café, açúcar e leite. A pia, comprida, tomava quase toda a parede e estava coberta de copos, garrafas, escorredor de pratos e outras peças de cozinha. 
A pia ficava entre a geladeira e o fogão de quatro bocas. Antes da pia, a mesa de jantar dividia um cômodo do outro. Sobre a mesa de jaqueira, pesada, com seis cadeiras, havia guardanapos, pratos vazios e talheres bem sobrepostos como que estivessem sempre à espera de convidados. A sala-cozinha era bem iluminada pela luz que entrava pela janela ao lado da pia e a porta à direita da TV. 
A porta principal que dava acesso à rua, ficava de frente para a mesa de centro. Havia ainda uma passagem do lado esquerdo da TV que dava acesso ao quarto e ao banheiro. Do lado do banheiro, uma porta pequena, trancada por um cadeado, onde diziam os mais velhos, sobretudo dona Antonieta e Manequinha, que ali estavam escondidos os 23 livros que ele escreveu.
Nos quatro cantos da sala-cozinha, pendurados nas paredes, havia toda sorte de artefatos: pratos turcos, pintados a mão, semelhantes aos porta-copos, presente do escritor Jorge Amado quando o visitou no verão de 1973; entalhes de madeira que lembravam carrancas indígenas que não davam para definir se se tratavam de rostos humanos ou feições de animais, embora ele mesmo dissera que elas representavam a cara de cavalos; um relógio antigo, com um pêndulo comprido que ainda marcava as horas; dois quadros:  o primeiro representando um mapa mundial antigo, datado de 1633, e o segundo, meio torto, trazia o desenho das capitanias hereditárias, com destaque para a Capitania de São Jorge dos Ilhéus. Uma foto pintada de um rosto de uma mulher, de cabelos curtos, com um belo colar de pérolas e um vestido preto, olhando ligeiramente para a direita, que todos diziam ser sua esposa, se destacava no centro da parede lateral. Assim era a sala-cozinha de Emílio Laureano.

SEU EMÍLIO CRIAVA GALINHAS NO QUINTAL. Costumava alimentá-las duas vezes ao dia. Conhecia cada uma das aves pelo nome. As mais próximas eram Judith e Carmelita, enormes galinhas poedeiras que chegavam no fim da postura à extraordinária marca de sessenta ovos. Carmelita, a mais velha das aves, estava com Emílio há vinte anos. Outro fato inacreditável já que estas aves vivem em média, sete anos. Se um ano de uma galinha equivale a dezoito anos de um ser humano basta multiplicar para se ter uma ideia da incrível idade de Carmelita. 
Judith e Carmelita eram também as primeiras a dar o alerta quando aparecia alguma ousada raposa ou uma jiboia faminta. Um dia, Ana Clara, Maria Raimunda e Firmina, três galinhas mestiças de pouco mais de oito meses de idade, desapareceram. As três sumiram de uma vez. 
Seu Emílio chamou Antônio, o cachorro do vizinho, seu principal companheiro de caminhada quando ele ia visitar a cobra gigante do rio. Antônio era um vira-lata inteligente, apesar da idade. Seu faro ainda conseguia sentir o cheiro de raposa há duas léguas de distância. Eles revistaram o quintal de cima a baixo, ponto a ponto, cerca a cerca. Nenhum sinal de Ana Clara, Maria Raimunda ou Firmina. Não havia trilha de sangue, pegadas, penas soltas ou qualquer sinal de alguma raposa sem-vergonha que tivesse invadido o quintal e sequestrado as filhas de Judith. O desaparecimento das aves deixou Emílio e Antônio intrigados.
Duas semanas depois foi a vez de Judith. A velha poedeira também sumiu. Emílio enlouqueceu. Quis a qualquer custo pegar aquele ladrão de galinhas. “Se não é uma raposa, deve ser algum vagabundo!” Pensou. No entanto, não havia pegadas nem tampouco rastros no quintal. Muito menos sinal de invasão. O jeito era armar uma tocaia para pegar o bandido no flagrante. E foi o que ele fez.
Emílio pegou a espingarda, uma velha carabina Chapinaque herdou de seu pai, se camuflou todo de penas e se escondeu no galinheiro durante três noites. Mas para frustração de Emílio o ladrão não apareceu. O gatuno já devia desconfiar que alguma coisa o aguardava. 
Entretanto, na quinta noite, por volta das duas horas da madrugada, Emílio despertou com um barulho estranho no galinheiro. Pegou a arma e, pausadamente, pé ante pé, foi ao encontro do larápio. O meliante saía do galinheiro com Carmelita, já desfalecida e as asas arriadas, entre as mandíbulas. O animal esbugalhou os olhos ao ser surpreendido pelo velho. A sua surpresa só não foi maior que a de Emílio ao descobrir que Antônio, seu companheiro vespertino de caminhadas, era o ladrão. 
- E eu que pensava que você fosse meu melhor amigo! – Lamentou. Na sequência, puxou o gatilho e atirou para o alto. Não teve coragem de atirar no velho vira-lata. Antônio chorou feito bezerro desmamado. 
Até hoje, próximo às ruínas do engenho, do outro lado do rio, onde o cachorro foi se esconder após o tiro, quando o vento sopra forte na lua crescente se ouve o choro do animal, arrependido e envergonhado.  Dizem que ele morreu deprimido por não ter sido perdoado pelo velho amigo.

domingo, 3 de novembro de 2019

CRÔNICA DE CADA DIA


A SÍNDROME DE TICO E TECO
Pawlo Cidade


Tem gente que para entender uma piada, sacar uma conversa, perceber uma situação demora um tempo. Tico e Teco não funcionam como a maioria dos mortais. Diz-se das pessoas que possuem um raciocínio quase parando, lento demais. Mas vocês sabem por que a gente chama de Tico e Teco? Trata-se na verdade de uma brincadeira corriqueira entre as pessoas quando mangam de si mesmo dizendo que têm na cabeça apenas dois neurônios, o Tico e o Teco. Tico e Teco é uma referência a dupla de esquilos esquisitos, porém engraçados, que foram criados pela Disney e sempre estão aprontando bobagem.

Pois bem, ao longo da vida conheci vários caras que eram assim. Na faculdade, quando a gente se reunia para fazer um trabalho em grupo e surgiam as dúvidas recorríamos ao indispensável google. E a gente ficava até tarde da noite pesquisando. Do nada, esse nosso amigo fez a seguinte pergunta: 

- Quem é que fica até tarde no googlerespondendo estas perguntas que a gente faz? Um olhou para a cara do outro e começou a rir. Caio aproveitou e respondeu: São os Smurfs! Nova gargalhada. E ele com tico e teco tilintando sem entender.

Coisa foi quando ele disse que estava estudando para o vestibular e ouviu a notícia daquela mina que desabou em San José, no Chile, em 2010, quando 33 trabalhadores foram soterrados a 688 metros de profundidade e resgatados com vida mais de três meses depois. Ele disse que ficava pensando como aqueles mineiros foram tão longe no Chile até serem soterrados. “Mineiros” para ele era quem morava no estado de Minas Gerais.

Mas nós não estamos isentos de sofrer da síndrome de tico e teco. Nem sempre compreendemos tudo e podemos ficar horas e horas tentando descobrir uma coisa que é óbvia para outra pessoa. Eu mesmo já tive meus momentos de tico e teco, sobretudo naquelas piadas horríveis de toc toc no WhatsApp. Atenção, galera, novo golpe na praça. Tem um cara passando nas casas, vendendo peneira, não compre, é furada! Favor repassar aos outros grupos... E ainda tem gente que repassa. 

Por falar nisso, outro dia tentei pegar minha mulher numa dessas piadas de toc, toc. Só que ela foi mais rápida que eu: 

Toc, toc. Eu disse. Ela perguntou: Quem bate? Eu, todo cheio de si, respondi: Sou eu, o amor de sua vida! E ela, toda sorridente respondeu na lata:
- Mentira. Dinheiro não fala!

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

"Educar é um ato de amor"



Era setembro de 1987 quando a diretora da Escola Municipal Pequeno Príncipe me disse que eu ia dar aula na quarta série. Dei um grito tão forte de contentamento que a velha gestora quase teve um troço. Fui para casa pensando num monte de estratégias, dinâmicas, jogos, brincadeiras para deixar meus alunos com um desejo enorme de querer aprender. Eu viajava no meu quarto ensaiando as aulas como se fosse uma peça de teatro e imaginava a cara dos meninos e das meninas com os olhos esbugalhados pensando num monte de coisas.

            Meu currículo tinha sido selecionado, entre dezenas de outros, para uns contratos emergenciais que a Secretaria de Educação estava realizando. Numa das cláusulas dizia que embora fosse de três meses – também chamado por eles de período de adaptação, meu contrato poderia ser prorrogado por até dois anos, se o contratado fizesse jus e eu, certamente estava disposto a fazê-lo.

Fazer pedagogia foi uma opção muito pessoal. Tive que ir de encontro a vários obstáculos, entre eles, meus pais e minha namorada. Ninguém acreditava que eu tinha escolhido um curso que ninguém mais acredita, dá pra acreditar?

“Cara, faz medicina, isso é que é profissão!” berrava um amigo.“É melhor ser advogado ou engenheiro, porcaria de professor!” dizia outro. “Ninguém mais quer ser professor! Faz informática, meio ambiente, turismo, mas esquece isso!” Protestava meu pai.

Mas eu queria ser pedagogo, queria nadar contra toda essa correnteza de descrença. Eu não queria ser mais um, queria fazer a diferença e tinha certeza que meus alunos iriam me ajudar nisso, mesmo sabendo que as escolas ainda continuavam sendo dominadas por uma concepção pedagógica tradicional. Eu sei que podia quebrar aquela ritualização de procedimentos escolares obsoletos, semelhantes a planos pré-históricos, cujo método dominante era chamado de aula expositiva.

Estava disposto a enfrentar um monstro que não se preocupava com o exercício da cidadania, com o que os nossos alunos queriam ou não aprender; um monstro que não estava nem aí para a formação do educando que sempre foi capaz de elaborar conhecimentos, habilidades, atitudes, valores, formas de pensar e atuar nesta ou em outra sociedade. Um monstro que fez da aprendizagem sinônimo de mecanização, um monstro que não está aberto para o diálogo, nem tampouco para o processo de rever conceitos. Um monstro chamado sistema.

Acontece que eu cria nos avanços de todas as pesquisas na educação e no ensino; contava com a ciência, a tecnologia e com as aulas que despertavam o gostinho de “quero mais”. Com a força de vontade que brotava dentro de mim; com os sonhos que não morriam; com os desejos que não paravam de germinar eu sabia que podia vencer. Sabia também que só isso não bastaria. Era preciso mais do que novas metodologias, recursos didáticos ou instrumentos tecnológicos.

Todavia, minha fé na educação era maior que as dificuldades que haveriam de surgir. Minha força de vencer era a prova das coisas que eu ainda não conseguia ver, mas sabia que estavam lá, me esperando, torcendo, acreditando.

Entretanto, eu queria que eles soubessem que educar é muito mais que um sacerdócio. “Educar é um ato de amor[i]”.



Pawlo Cidade, escritor e ativista cultural.







[i] Esta frase é atribuída a Paulo Freire.

sábado, 1 de julho de 2017

“Adeus, vovô. Vou sentir sua falta também. Dá um beijo na vovó por mim”.



- VOVÔ, VOVÔ... ACORDE! Vai pra cama, já está ficando tarde. Está chovendo, o senhor não está vendo?... – Johan puxava a mão esquerda do velho. Arron permanecia calado, insensível, na cadeira de balanço que às vezes costumava por na varanda, sempre que a noite chegava, para ouvir o canto da natureza. “A melodia que vem da mata, me acalma” – Comentava. A chuva forte foi diminuindo de intensidade. O vento e os trovões pararam. Johan não tinha medo deles e, apesar do pai sempre brincar dizendo que aqueles fenômenos da natureza indicavam que Deus estava dando uma geral no céu, preferia ficar na cama, embaixo do seu cobertor amarelo, com desenhos de aviões e carros de corrida.

Entretanto, aquela noite tinha sido diferente. Saiu do quarto e foi ver porque o avô ainda não havia entrado. Arron tinha medo de trovões. Os trovões eram estrondos muitos similares às bombas que caiam sobre Amsterdam, no dia em que os alemães invadiram e dominaram o país. Arron e seu pilotão jamais esqueceu daquele fatídico dez de maio de mil, novecentos e quarenta. Eles resistiram heroicamente por cinco dias ao ataque, mas acabaram sendo forçados a depor as armas pelos tanques do exército inimigo. Ele, e mais três companheiros, entre eles, Mulisch, ficaram escondidos num buraco de esgoto por uma semana, enquanto as bombas continuavam caindo sobre a cidade. Seu olfato nunca conseguiu se acostumar ao fedor que penetrava em suas narinas durante o tempo que permaneceu como um animal acuado, em meio a dejetos humanos e ratos. Esse era também um dos motivos que “banhava-se” em perfume todos os dias, independente da visita da enfermeira Ida, como costumava brincar Johan e Sita.

“Vovô?” O pequeno Johan engoliu em seco quando percebeu que ele não respondia. Pensou em pegar um graveto e colocar na boca do avô, como fazia todas as vezes que o velho dormia de boca aberta. Mas os olhos e a boca estavam hermeticamente fechados. Ele encostou lentamente o ouvido direito no peito do avô. O coração não batia mais.

O pequeno Johan chorou. Depois, subiu no colo do avô, beijou-lhe o rosto, abraçou-o carinhosamente, e antes de adormecer disse: “Adeus, vovô. Vou sentir sua falta também. Dá um beijo na vovó por mim”.

Trecho de um livro inédito: "O Diário do Beija-Flor", de Pawlo Cidade.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

AS DOCES AMARGAS MEMÓRIAS DE PEDRO E ALICE


A trama, “é mais uma daquelas manjadas histórias de amor que já aconteceu comigo, com você e com todo mundo. E como toda história de amor, um terceiro personagem entra na história: o ciúme.” Para Gustavo Felicíssimo, editor, As Doces Amargas Memórias de Pedro e Alice “é uma história que salta da dramaturgia para o romance, mas que pela sua estrutura logo logo estará também nos palcos do país.” E acrescenta: “Este livro de Pawlo Cidade me fez lembrar minha adolescência, conturbada como todas elas são, repletas de questionamentos e grilos, relata um momento de passagem, que é em verdade um rito que se antecipa à vida adulta. Como Alice, também me apaixonei por uma mulher mais velha, coincidentemente a minha professora, uma paixão, claro, não correspondida. Mas a personagem parece ter tido, pelo menos na ficção, melhor sorte que eu, em uma trama que mais parece ter sido escrita para o cinema. ”

O escritor Jorge Amado dizia que as suas histórias nasciam de experiências que ele também viveu e Pawlo Cidade confessa que “gosta de contar experiências, de misturar fantasia e realidade. Gosta de gostar de escrever, de amar, de ouvir”. Cidade é pedagogo, especialista em Meio Ambiente, dramaturgo, gestor cultural e ilheense “por dádiva do divinal” e um contador de histórias que acredita na vida, nas pessoas e no que elas têm de melhor: o amor! “É por isso que continuo escrevendo, é por isso que continuo acreditando. ”


quinta-feira, 17 de março de 2016

O PROTAGONISMO DA CULTURA E A VISÃO ESTRÁBICA DO GESTOR CULTURAL

“O melhor é não juntar pensamentos divergentes,
mas, criar unanimidades burras”.
Pawlo Cidade¹ 

Convergente, divergente e vertical
Outro dia ouvi de um amigo que era melhor falar por metáforas porque evita dentes quebrados e dor de cabeça na inteireza. Isto porque as pessoas não estão preparadas para ouvir críticas ou sugestões sobre o que vem fazendo na vida profissional.  O fato é que, sem tergiversar, vou direto ao ponto: os governos municipais não se dão conta que colocam na pasta da cultura pessoas com visão estrábica. E, tal qual o estrabismo – sem nenhuma menção pejorativa nem preconceituosa para quem possui este problema muitas vezes hereditário – podemos afirmar que a visão gerencial no campo cultural, de quem está nesta condição, é classificada de três maneiras:
1.      Convergente – quando o gestor não consegue enxergar que o Conselho de Cultura pode ser um aliado poderoso na sua gestão. Deste modo, todas as suas atitudes são atitudes voltadas para dentro de si mesmo;  
2.      Divergente – quando o gestor radicaliza suas decisões e se fecha no seu protagonismo cultural onde só ele é capaz de promover uma determinada ação e
3.      Vertical - quando o gestor planeja sem ouvir as pessoas mais interessadas no Plano de Ação do órgão máximo da cultura: os artistas.

Política de Balcão e Pires na Mão

Quase sempre este tipo de comportamento ocorre quando o gestor traz enraizado em sua experiência duas práticas: a primeira é a “política de balcão”, do favorecimento, do clientelismo, do paternalismo, dos critérios obscuros e das motivações semelhantes como bem diagnostica TURINO (2009): “Um hábito que tanto infelicitou, e infelicita, nossa prática cultural”. Xô! “Quebrem o balcão!” – Diziam os cineastas do Estado de Alagoas para o governo alagoano que até 2013 era o único estado nordestino que não possuía uma política cultural de fomento.
A segunda é a prática do “pires na mão”, cuja origem se diz que surgiu com os prefeitos que cobram dia-após-dia de seus parlamentares emendas para resolver as cobranças da população. O ato em si de cobrar não conceitua a expressão “pires na mão,” porém, o vai-e-vem à Brasília, a exigência de documentação para liberar a emenda, a modelagem obrigatória de projetos, estar em dia com o Cadastro Único para Exigências de Transferências Voluntárias – CAUC - transforma o prefeito num pedinte de primeira grandeza. Assista ao vídeo “O calvário dos prefeitos para conseguir recursos – A história do pires na mão”, no YouTube, e verifique.
São estas práticas do gestor cultural que reduz a Cultura à cereja do bolo. Ou seja, a Cultura passa a ser vista aqui como a prima pobre, a pasta coitada, a que sempre é relegada a segundo, terceiro ou décimo plano.  O gestor traz consigo a marca da esfera pedinte, amadora, chata, que é lembrada apenas quando o governo inaugura alguma coisa.
A situação complica quando estas três formas são simultâneas e o gestor, perdido, nunca tem certeza de nada e está sempre ajustando sua prática à prática do outro. Torna-se um camaleão sem cor, não sabe fundir ideias e propostas, desconhece o conceito de convergência e acredita que o melhor é não juntar pensamentos divergentes, mas, criar unanimidades burras.

Para que haja protagonismo cultural

Para que a Cultura assuma de vez seu protagonismo no campo das políticas públicas e na gestão municipal e deixe de “ser vista como acessória no conjunto das políticas governamentais” (BOTELHO, 2001) é preciso considerar alguns aspectos:
a) O cargo deve ser técnico. Além de técnico o gestor precisa ser político;
b) Deve possuir qualificação e experiência - condições indispensáveis;
c) Sem bajulação ou lisonjeio gozar do apoio do prefeito;
d) Precisa convencer os companheiros de governo que a Cultura é transversal. Para isso terá que saber articular as demais esferas do governo como um programa conjunto;
e) Seu plano de ações deve prever atividades que estimulem o pertencimento junto à comunidade. Porém, isso só será possível se ele estiver em constante diálogo com ela;
f) Tem que definir logo no início do seu mandato qual o conceito de Cultura que irá trabalhar;
g) Mapear toda a comunidade cultural. Na sua sala tem um mapa onde ele pode traçar sua ação, metas e objetivos já alcançados, identificando grupos, instituições, coletivos no Município;
h) Quando pensar em programas e projetos que democratizem o acesso aos bens culturais precisa primeiro pensar na democracia cultural. Não adianta levar orquestra sinfônica para a comunidade se a comunidade nem sequer foi ouvida se queria ver uma orquestra sinfônica;
i) Esquecer de vez a função de produtora. Um órgão de cultura não pode produzir eventos de todos os gostos e todos os tipos. Precisa fomentar, criar oportunidades e condições para que os verdadeiros promotores de eventos desenvolvam seus projetos;
j) No seu planejamento estratégico não pode faltar programas de formação e capacitação dos artistas e técnicos. Deve criar objetivos e metas que possam ser alcançados. Não pode trabalhar de forma empírica e ao sabor do vento. Do vento do orçamento, do aval do prefeito, da boa vontade da secretaria da fazenda. Se há planejamento financeiro, há disponibilidade orçamentária. Os imprevistos podem ser sanados com os parceiros locais. E, os parceiros não podem ser apoiadores de ocasião, nem amigos afins, mas conectores que acreditam no processo de transformação através da Cultura;
l) Seu principal foco deve ser a reterritorialização. “Mesmo no âmbito da cultura global, surgem espaços destinados aos produtos “típicos”. A reterritorialização contemporânea, com a emergência cultural das cidades e regiões, tem sido a contrapartida da globalização cultural.  Assim, o panorama atual aponta para um desigual e combinado processo de glocalização” (RUBIM, 2006). Sem valorização do local não consegue ganhar apoio da comunidade cultural. Fica isolado, desacreditado e dá a impressão de que não faz nada. E quando faz, passa despercebido;
m) Suas estratégias devem envolver o Conselho Municipal de Cultura, a captação de recursos para o Fundo Municipal de Cultura e selar de vez o Sistema Municipal de Cultura;
n) Deve promover a participação efetiva dos artistas locais em grandes datas comemorativas, a exemplo do Carnaval, São João, Réveillon, aniversário da Cidade, dando-lhes condições dignas com camarins próprios, cachês justos e tratamento semelhante ou melhor do que os artistas visitantes.
Ora, uma ação de governo que se pretenda progressista, ou transformadora, tem a Cultura como prioridade, assinala TURINO (2009). Não dá para agir assim se os gestores culturais continuarem com esta visão estrábica e, também, míope! O que requer aí um outro artigo para esclarecer – e convencer – de que um verdadeiro gestor da cultura tem que ter olho de tandera. Sua capacidade de enxergar tem que ir além do que está no seu campo de visão.   

Sem alinhamento não há convergência

Se ele consegue municipalizar a Cultura e ampliar o orçamento vira referência. É copiado, lembrado e apontado como figura ímpar, e seu nome estará nos anais da história. Se não conseguir, e nem sequer pensar assim, cada olho – assim como no estrabismo – irá formar uma imagem diferente do objeto. Afinal, sem alinhamento, não há convergência. É claro que neste cenário aparentemente caótico existem bons exemplos que se espalham pelo país, como o Município de Goiana, em Pernambuco, onde são investidos 2% do orçamento anual em Cultura. “Estamos escrevendo uma nova página na rica e singular história de Goiana. Somos hoje a cidade que, além de possuir um tecido cultural diversificado, nos preocupamos em fomentar e garantir subsídios para que o fazer cultural seja valorizado”, disse o prefeito Fred Gadelha, em entrevista na página oficial da prefeitura da cidade.
Imagine um Conselho de Cultura que não compreende seu papel e sua função. Agora, some-se a isso um gestor cultural despreparado e divergente. Qual o resultado? Uma política cultural inexistente e um sistema inoperante.
Todos estes aspectos aqui elencados devem ser considerados de forma conjunta e nunca isoladamente. Senão, sua administração recairá em uma ou mais classificações estrábicas. Porém, se o seu planejamento excluir qualquer forma imediatista, estará priorizando escolhas de médio e longo prazos, dando a todos a possibilidade de escolhas e contemplando as várias dimensões da cultura sem nenhum preconceito ou dirigismo: “O Estado tem de estar a serviço da sociedade e nunca o contrário” (TURINO 2009). Segundo ele para que a administração pública cresça é preciso “assumir uma postura mais humilde e menos impositiva quanto à proposição e execução de programas”. É desta maneira que Estados e Municípios podem se tornar articuladores, jamais produtores.
Considerações finais
Afirmar que: os governos municipais não se dão conta que colocam na pasta da cultura pessoas com visão estrábica não faz desta sentença uma regra. Afinal, toda regra tem exceção. Melhor, exceções. E mais, garantir o investimento de 1% - como prevê a PEC 421 - ou 2% como deseja o Município de Goiana para o fomento, não são suficientes para a construção de uma política cultural de descentralização de recursos. Há de se considerar as forças artístico-culturais, organizadas, que tentarão cooptar o maior número possível de investimentos para suas áreas. E, se o gestor não tiver a capacidade de saber “dividir o bolo”, controlar os egos, fortalecer as tradições, impor limites e provocar intervenções, dificilmente teremos ações estruturantes, projetos sustentáveis e programas de fortalecimento para a diversidade cultural.
E, quando as forças organizadas se deslocam como tratores contra os gestores estrábicos, eles, acuados, sem planejamento, partem para uma política de eventos – imediatista - na contramão da política cultural, formando “um conjunto de programas isolados – que não configuram um sistema, não se ligam necessariamente a programas anteriores nem lançam pontes necessárias para programas futuros – constituídos por eventos soltos uns em relação aos outros” (COELHO, 2004).
O gestor cultural precisa pensar localmente, agir globalmente e se fortalecer coletivamente. O desejo de construir em conjunto, de unir forças não o torna incapaz na condução de seus trabalhos. Pelo contrário, demonstra liderança, legitimidade, segurança, competência e capacidade de congregar em um mesmo ambiente, pensamentos divergentes, ações estruturantes e relações horizontais.

[1] Pawlo Cidade é escritor, produtor e gestor cultural. Autor da cartilha “Como Transformar a Cultura em um bom negócio – 17 perguntas para você se torna um empreendedor cultural”, Editora A5, Itabuna, Bahia, 2014.


REFERÊNCIA
TURINO, Célio. Uma gestão cultural transformadora, 2009. Disponível em:  http://www.fmauriciograbois.org.br/cultura/index.php?option=com_content&view=article&id=10:gestao Acesso em: 21 de nov. 2015.
RUBIM, A. A. C. Políticas Culturais entre o possível e o impossível. In: Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura, 2., 2006. Salvador-Bahia.
BOTELHO, Isaura. Dimensões da cultura e políticas públicas, 2001. Disponível em: http://www.guiacultural.unicamp.br/sites/default/files/botelho_i_dimensoes_da_cultura_e_politicas_publicas.pdf Acesso em 21 de nov. 2015.
COELHO, Teixeira. Dicionário crítico de política cultural. São Paulo: Editora Iluminuras, 2004. 300 p.


domingo, 23 de agosto de 2015

EU SEMPRE PENSEI ASSIM




AS DOCES AMARGAS MEMÓRIAS DE PEDRO E ALICE

PEDRO

O poeta profetizou. Aquela poesia do coração despirocado foi sinistra. Ele acertou na mosca! E eu achando que havia exagerado ao confessar que ela beirava a insanidade. Perder a virgindade num porão imundo de um auditório escolar em plena atividade pedagógica, especialmente na hora do intervalo é no mínimo pirraça, doidice, excentricidade, delírio! Falta adjetivo para compreender a proposta indecente e estapafúrdia que a louca da Alice me fez.
“Então me faça mulher aqui. Agora!”
Deus do céu! Será que ainda eu tenho idade para viver experiências intensas que transformem meu coração numa verdadeira bateria de escola de samba? Quando se é adolescente ou um jovem à beira dos 20 anos você ainda se aventura meia-noite numa estrada deserta sem medo de ser assaltado. Você é capaz de quebrar regras sem se preocupar com as consequências. Afinal, você só tem 20 e um mundo inteiro pela frente para corrigir as burrices que você cometeu. Aos 20 anos você é capaz de emendar a balada da noite anterior com o trabalho da manhã seguinte às 7 horas. Pode dormir o dia inteiro e virar 1, 2, 3 noites no carnaval e na quarta noite ainda ter fôlego para pegar o cinema com aquela gata que você vem tentando ficar há um tempo.
 Aos 20 anos, ou quase 20, seus amigos são como uma família incrível. Vocês criam dezenas de coisas juntos, são cúmplices, escondem os segredos uns dos outros, cobrem as mentiras, farreiam juntos, tomam banho juntos, dançam juntos, criam coreografia e gritos de guerra e todo mundo namora junto.
Quando se chega à casa dos 30, a história é diferente. As decisões que você toma podem significar sua vitória ou derrota, independência ou dependência, prisão ou liberdade. Um mundo de escolhas que não lhe dá tempo, condições ou possibilidades. E daí? A vida não é minha? Quer dizer que eu não posso mais viver perigosamente, tomar banho nu na praia em noite de lua cheia, brincar de pega-pega com a mulher que eu amo, fazer castelos de areia, beijar embaixo da chuva, transgredir a lei, pular a cerca, subir num pé de coco, quebrar o telhado do vizinho, abrir os braços no meio da rua e dá um grito de felicidade, namorar no banco da praça, chupar sorvete de framboesa com flocos de brigadeiro, ouvir Down Under, da banda australiana Men at Work, mais alto que um trio elétrico e ainda fingir que toca guitarra?

Infelizmente, como diz o bom senso: Nem tudo que eu quero eu posso. Nem tudo que eu posso eu devo e nem tudo que eu devo eu quero. Seu caráter lhe dirá o que você quer, o que você pode e o que você deve. E, naquela estação, aos 33 anos de idade com uma carreira se solidificando, carro seminovo, emprego garantido, um pouco de dinheiro no banco e solteiro eu queria Alice, eu podia ter Alice e eu acreditava no fundo da minha alma que pertencia a Alice. 

As doces amargas memórias de Pedro e Alice, de Pawlo Cidade. Inédito. 

PRÉ-VENDA LIBERADA! "Greta Garbo, quem diria, esteve em Ilhéus!"

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