segunda-feira, 17 de maio de 2021

O POVOADO DAS ONZE MIL VIRGENS - CAPÍTULO 2: "A PRESSA DE MESTRE VIRGÍLIO" E CAPÍTULO 3: "A CHEGADA DOS PEIXES-VOADORES"

 A PRESSA DE MESTRE VIRGÍLIO

 

 

Seu Ananias levou quase meia hora decidindo se colocava o banco a leste ou a oeste do Monumento. Não sabia se o mais bonito de se ver, no espetáculo que estava por vir, seria a chegada ou a partida. Quem registrou esta indecisão de Seu Ananias foi Mestre Virgílio, que, mesmo andando a passos largos, como se quisesse vencer o vento gelado que soprava do Monte, não passou despercebido pelo velho carpinteiro. O mestre retardou os passos e esgueirou-se por trás de uma lixeira. Quando, por fim, se afastou sorrateiramente, quase em silêncio, aproveitando a oportunidade em que o carpinteiro ficou de costas, preocupado com a melhor posição do banco na praça, “o homem que tudo vê”, não perdeu a chance de berrar: 

- Pressa venturosa, vagar desastrado!

O provérbio na ponta da língua soou como um presságio e pegou Mestre Virgílio de surpresa. A resposta do passante quase saiu, mas ele sequer a balbuciou. Preferiu engolir em seco sem deter o passo. Apenas baixou a cabeça e acelerou ainda mais as passadas como um gnu à frente de sua manada. Seu Ananias inspirou profundamente, deu de ombros, coçou a testa envelhecida e, como se já soubesse o destino do Mestre Virgílio, vaticinou:

- É cousa! 

Se havia uma coisa que deixava todo morador de Onze Mil Virgens com uma pulga atrás da orelha, morrendo de preocupação, desconfiado, suspeitando, conjeturando, e todo o mais que o significado desta expressão pudesse exprimir, era quando Seu Ananias exclamava: “É cousa!”. A frase exclamativa que mais parecia uma afirmação sempre vinha carregada de uma ou de outra certeza: a de que o indivíduo escondia alguma coisa ou alguma coisa estava prestes a acontecer com o indivíduo. E isso fazia de Seu Ananias não apenas o homem que sabia de tudo, mas o carpinteiro que adivinhava demais! E adivinhar demais suscitava comentários, que quase sempre saíam da boca de Isaura Cornejo, “A mulher do marido que ninguém vê”,  e atual presidente da Confraria dos Letrados, que dizia aos quatro cantos do povoado que:

- O velho tem parte com o diabo!

Se a adivinhação era uma benção ou uma maldição na vida de Seu Ananias, cabia ao povo de Onze Mil Virgens decidir. O fato é que o agulhão-vela do atlântico, o gnu das savanas – um fato extraordinário para um homem que beirava os noventa anos de idade - com seus passos largos e rápidos, corpo esguio, pernas de girafa, finas e longas, em direção ao Monte da Febre, carregava uma pá com cabo de jacarandá. Na cintura, um embornal de couro consumido pelo uso, carregado de ferramentas de entalhe e uma faquinha curta, de cabo de osso, ao lado de um pequeno envelope, impregnado de capim seco, com um segredo guardado há cinquenta anos.

 

 

Ilustração de Jô Oliveira



A CHEGADA DOS PEIXES-VOADORES

 

 

Seu Ananias finalmente se sentou no banco. O sol foi despontando por trás do Monte da Febre, às cinco e trinta e cinco da manhã. Concomitantemente, os peixes-voadores surgiram numa grande nuvem, tal um bando de gafanhotos, estridulando, como  um som agudo mais alto estalado de uma nota de viola. As pessoas foram saindo de suas casas, crianças pulavam pelas janelas, se divertindo com o barulho estridente da migração. Um fenômeno único, que durava exatos quarenta e cinco segundos. Tempo suficiente para percorrer os quatrocentos metros entre o salto do Rio Vermelho, a Praça da Igreja Matriz, e voltar novamente ao Rio Vermelho. Os peixes evitavam a barragem que ficava na bifurcação da corrente e a vegetação de aguapés e capões do mato. O rápido sobrevoo no céu do pequeno Povoado das Onze Mil Virgens era um espetáculo do outro mundo. Não havia sequer um morador do povoado que soubesse responder por que aqueles peixes magníficos, acostumados a viver nas águas quentes das regiões tropicais e subtropicais dos oceanos, escolhiam aquela trajetória para voltar ao Oceano Pacífico. A visita dos peixes-voadores para uns, era o sinal do fim dos tempos; para outros, a chegada das boas novas.

A fantástica e inusitada migração dos peixes-voadores ocorria uma vez por ano, na época das cheias, quando começava o período do acasalamento. Peixes grandes e pequenos, em seu balé coreográfico, deslizavam como serpentes, entre as folhas alternadas e espiraladas das árvores que sombreavam a Praça da Matriz. As crianças saltavam, gritavam e sorriam excitadas tentando tocar as escamas azuis dos peixes-voadores. Um azul diferente, índigo, quase violeta, que refletia a luz dos primeiros raios de sol que despontavam no povoado. 

Os olhos dos peixes-voadores pareciam ser mais achatados que os olhos dos peixes comuns. As barbatanas peitorais tinham quase o tamanho deles, assim como as barbatanas pélvicas. Juntas, formavam quatro asas que impulsionavam os animais para a frente. A impressão que se tinha, ao vê-los revoar sobre as cabeças dos moradores, era a de que os peixes-voadores, batendo as asas, assemelhavam-se a cavalos a galope – o mais rápido dos movimentos. O movimento dos peixes lançava água do Rio Vermelho que escorriam de suas escamas. Pareciam gotas de chuva taciturnas e cálidas que caíam sobre os olhos estupefatos e curiosos exalando um cheiro meio desagradável. Seu Ananias dizia que aqueles pingos davam sorte, por isso fazia questão de ficar bem embaixo da passagem deles. 

Aquele imenso cardume mergulhou na direção do rio, como se o magnetismo das águas os puxasse de volta para seu habitat. Entretanto, ao invés de imergirem imediatamente de ponta-cabeça, eles planavam como gaivotas por mais um tempo sobre a lâmina d’água. As quatro asas paravam de bater até que o peito tocasse levemente o espelho d’água, com a cauda conduzindo o movimento majestoso, exatamente como um leme, a orientar o caminho a seguir. E, como num passe de mágica, diante dos olhares fixos dos moradores, submergiam nas águas escuras e frias do Rio Vermelho. 

Os habitantes do povoado, inquietos, irrompiam em palmas perante aquele espetáculo ímpar da natureza. E quando tudo parecia terminado, grupos menores submergiam para brincar e ziguezaguear na face das águas, rio acima, instigando os cachorros a segui-los, latindo, pela margem direita do Rio Vermelho até o encontro com o Rio Miranda. 

Em tempo, para coroar de êxito ainda mais aquele presente do céu, um bando de cotovias atravessou o rio em voo ondulante, para cima e para baixo, alternadamente. No minuto em que as aves, cantando, subiram bem alto até parecer apenas um ponto no firmamento, os peixes-voadores desapareceram no rio, dando adeus à sua migração[1]

 



[1] A migração dos Peixes-Voadores e todos os acontecimentos que se sucederam após a sua chegada estão registrados no Livro de Tombo das Extraordinárias Passagens do Povoado das Onze Mil Virgens (N.A.).

domingo, 16 de maio de 2021

DA SÉRIE FRASES E PENSAMENTOS

O carro de feno, de El Bosco. Pintura que integrou a capa de Rio das Almas


    “Durante a escrita de "Rio das Almas", cheguei ao ponto de achar que já havia escrito tudo. Mas aí vem as pistas que foram deixadas nos primeiros capítulos, os mistérios que ainda não foram revelados, um personagem-chave que foi citado em um determinado capítulo que precisa ser evidenciado e a decisão mais difícil: como terminar o que se começou. Ando de um lado a outro do meu espaço de escrita, deixo o romance curar, embaixo da fluorescente, como se ele estivesse defumando sob a luz do sol. Em situações assim, Gabriel García Marquez pedia logo uma rosa amarela. Uma das muitas superstições do Gabo. Ele tinha as crendices, eu tenho Deus. Quem não tem Deus, tem crendices, a vida é assim. De súbito, nem mesmo terminei Rio das Almas e já surge a ideia de um novo romance. Pego meu bloquinho de notas, escrevo o título e uma pequena estrutura dos primeiros personagens. Retomo a trajetória de Deocleciano, protagonista de Rio das Almas, e descubro que, assim como os meus personagens, também esqueci de contar a história que dá título ao romance. E aí volto a trabalhar escrevendo que "DESDE QUE AS PESSOAS COMEÇARAM A ESQUECER DAS COISAS, ninguém mais se lembrava porque o rio das Almas se chamava Rio das Almas. Viva a literatura!.” (Pawlo Cidade)

sábado, 15 de maio de 2021

O POVOADO DAS ONZE MIL VIRGENS - CAPÍTULO 1 - SEU ANANIAS, “O HOMEM QUE TUDO VÊ”

Mapa do povoado das onze mil virgens/Ilustração de Jô Oliveira/Pawlo Cidade


Naquele extraordinário ano de 1942, quarta-feira, 16 de setembro, Seu Ananias, filho de seu Natanael, um dos mais antigos moradores do Povoado das Onze Mil Virgens, foi o primeiro a chegar na Praça da Igreja Matriz. Muito antes dos primeiros raios de sol despontarem por trás do Monte da Febre, ele chegou devagarinho, trazendo um banquinho de madeira, feito por ele mesmo, no último inverno. Escolheu o melhor local, de onde podia ver o tão esperado espetáculo secular da natureza, com os olhos “que a terra um dia haveria de comer”. E que olhos! Seu Ananias conhecia a vida de todos os moradores da vila. Sabia de tudo, antes mesmo de contarem a ele. Como ele sabia, ninguém sabe. Era um grande mistério, um segredo que, naquele grande dia, foi revelado. “Porque nada está encoberto senão para ser manifesto; e nada foi escondido senão para vir à luz”, dizia a beata Maria do Rosário, recordando uma passagem das escrituras sagradas.

Os irmãos Silva diziam que seu Ananias possuía o maior olho do mundo. A afirmação, em tom jovial, partira do irmão mais novo, João Silva. 

Labão, filho de Tiago de Alvarenga – o Tiagão – logo protestou:

- Quem tem o maior olho do mundo é Deus!

- Eu duvido! – Insistia João Silva, ainda espirituoso. Em seguida acrescentou: 

- Ananias tem o olho muito maior que o maior olho do maior monstro marinho do mundo, o polvo gigante das profundezas do oceano!

E todos caíram na gargalhada. Labão não sabia se ria da comparação do jovem ou da mentira que ele acabara de contar. João fantasiava demais. A culpa da exagerada comparação do irmão mais novo fora do pai, Josué Silva, que deu ao filho, quando completou doze anos, “Vinte Mil Léguas Submarinas”, de Júlio Verne. A bordo do famoso submarino Náutilus, sob o comando do Capitão Nemo, João viajou em suas páginas por mais de vinte vezes.

Havia ainda os que juravam que os olhos de Seu Ananias mais pareciam os olhos de uma mosca, “porque enxergavam tudo e todos em todas as direções”. A mosca, assim como a maioria dos insetos, possui olhos compostos, que fazem com que ela tenha uma visão de 360 graus! Seu Ananias era, no linguajar popular, também, “o homem mosca!”

Seu Ananias não andava, deslizava. Saía arrastando as alpercatas de couro pelas ruas empoeiradas do povoado, com os pés sempre na largura dos ombros, dobrando levemente os joelhos, empurrando-os, curvando igualmente o quadril e inclinando-se para a frente. Para manter o equilíbrio, Seu Ananias esticava os braços também para a dianteira e fitava seu destino, apoiado pela bengala de peroba. Os passos curtos evitavam uma topada ou um inesperado escorrego. Caminhava numa velocidade constante, num misto de equilíbrio e afastamento dos membros inferiores. Cada pé dava o impulso necessário ao outro, deslizando um por vez. Primeiro o pé esquerdo, depois o pé direito ao lado da bengala, transferindo para cada um seu peso, sem deixar, em nenhum momento, o pé deslizar fora do chão. Só assim se sentia mais confiante.

Da Rua de Lameque, também conhecida como “Rua das Putas Tristes”, de onde talvez tenha nascido o título do livro do escritor Gabriel García Márquez[1], até a praça da Igreja de Santa Úrsula, a padroeira do povoado, Seu Ananias levava uma manhã inteira. Era tão lento, tão lento, que uma lesma diante dele parecia uma lebre. E coitado daquele que se dispusesse a acompanhá-lo para apressar-lhe os passos. 

- Tenho todo o tempo do mundo, resmungava. 

E naqueles passos vagarosos, porém, observadores, analisava o ir-e-vir de cada um dos moradores de Onze Mil Virgens. Sabe aquele periscópio que sai do submarino para olhar em volta? Era como Seu Ananias se comportava quando pausava sua caminhada antes de chegar ao seu destino. Nada ficava às escondidas do olhar atento do velho. Parecia que aqueles olhos eram feitos de poderosas lentes de aumento que podiam enxergar através das paredes, o que lhe rendeu outro apelido: “Senhor Raio Xis”.

Dona Ruth, a bodegueira dos Secos e Molhados, debruçada sobre o balcão da mercearia, era a primeira a sinalizar quando Seu Ananias parava: 

- Olha lá o velho, parece uma coruja girando aquele pescoço de rosca. E fazia um gesto cômico com as mãos para os fregueses. Em seguida acrescentava em tom de espirituoso: 

- Os olhos de Ananias estão a ti espiaaar!

O som agudo e prolongado de sua gargalhada lembrava aqueles mamíferos da savana africana, as hienas. Entretanto, dona Ruth não viu quando Seu Ananias colocou bem perto do Monumento das Virgens o banquinho que ele mesmo fez. Era um banquinho um pouco maior que um tamborete, com cinquenta centímetros de altura, polido à mão, acoplado a um encosto de mais vinte centímetros, feito de peroba-rosa do resto de uma madeira que foi parar na sua carpintaria. Embora fosse um banco pequeno, era pesado. A peroba-rosa é uma madeira dura, e é muito mais durável quando não molha nem fica muito tempo em contato com o solo. Seu cerne varia entre o róseo-amarelado e o amarelo-queimado, delicadamente rosado, tendendo mais para o vermelho-rosado uniforme ou com manchas e listras escuras, tal qual a aparência do banco. A peroba-rosa quase não tem cheiro, mas tem um gosto amargo. Seu Ananias costumava também fazer o chá da casca da peroba-rosa, principalmente a amargosa, para proteger contra as picadas de inseto, sobretudo o que transmitia a malária. Aprendera com o pai o hábito de tirar uma pequena lasca da madeira, quase da espessura de um palito de dente, e mastigar para sentir, segundo ele, “o sabor da madeira”. 

- A peroba-rosa é a madeira! afirmava. Não sabia explicar por que tinha uma preferência especial por ela, contudo se orgulhava de já ter produzido caibros e ripas para muitos telhados, marcos de portas e janelas, venezianas, portões, molduras – sobretudo a moldura do quadro da senhorita Theda Bara – a loira mais metida e pernóstica de Onze Mil Virgens. A única com nome estrangeiro, batizada pela madrinha que veio dos “States”, “em homenagem à atriz americana”. 

De todos os móveis que fez usando a peroba-rosa, o que mais lhe deixava orgulhoso eram as carteiras escolares para seus netos e para todas as crianças do povoado que estudavam na Escola Municipal do Ensino Fundamental de Onze Mil Virgens. As carteiras escolares simbolizavam a extensão de seu ensinamento, mesmo sem saber escrever seu próprio nome. Eram verdadeiras obras de artes plásticas, feitas à mão, uma a uma, personalizadas com sua marca registrada: um peixinho, semelhante àqueles utilizados pelos cristãos primitivos. 


[1] Gabriel García Márquez escreveu “Memória de Minhas Putas Tristes”, publicado no Brasil, em 2005, pela Editora Record. Vale salientar que a história escrita pelo colombiano nada se compara com o arrogante Lameque, produtor de café que morava com suas três esposas. Exceto pelo fato de ambos – o personagem de Garcia e o atrevido Lameque possuírem quase a mesma idade (N.A.).

NOTA: O romance O povoado das onze mil virgens não foi dividido em capítulos númericos (1,2,3, etc). Mas em títulos. Para que você possa acompanhar a publicação dos capítulos neste blog, eles foram numerados.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

RIO DAS ALMAS


Imagem meramente ilustrativa


"Padre Antão deu um salto do banco e pronunciou alguma coisa que ninguém entendeu. Era a caricatura viva de um mudo. Só que mais eloquente nos gestos e no olhar desesperado. O magrelo, de estatura mediana e feições ajustadas, pele cor de oliva, cabelos pretos encaracolados, sobrancelhas negras e bastas, conservava ainda a beleza de seu rosto oval e o pescoço curto, com raríssimos sinais de velhice, apesar dos seus sessenta e cinco anos. Dom Alcântara Machado dissera, ao pé de ouvido do próprio padre, no dia de sua colação de ordem eclesiástica, que sua beleza se configurava uma afronta ao celibato. E que qualquer falha de percurso, durante o seu ministério, deveria ser perdoada pela Papa. E os dois riram muito, deixando os demais membros da cerimônia religiosa curiosos" (Rio das Almas, p. 247, Editora Chiado Books).




domingo, 29 de novembro de 2020

RIO DAS ALMAS


A imagem é meramente ilustrativa. Trata-se do bucólico povoado de Capivari, no Serro, em Minas Gerais. Foto de Tom Alves.


"Rio das Almas, até aquela noite de 31 de julho de 1943, sempre foi um povoado de ruas tranquilas, gente hospitaleira, trabalhadora, campesina e festeira. Um povoado em que seus velhos sentavam à praça da Matriz para ver, todas as tardes, as mesmas pessoas, falar das mesmas coisas, rir das mesmas piadas, ouvir o sino da igreja, admirar o lusco-fusco no Monte Marrom e apostar qual dos dois jumentos, Cosme ou Damião, sobreviventes da tragédia da mina, em suas passadas lentas e simétricas, chegaria primeiro ao fundo da escola para comer o resto da merenda dos estudantes que as merendeiras depositavam na última hora da tarde". (Rio das Almas, EDITORA CHIADO, p.100)

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

TRÊS PEÇAS DE TEATRO EM E-BOOK JÁ ESTÃO NA AMAZON

Já estão disponíveis na Amazon três peças de teatro para jovens e adultos. Elas foram lançadas este mês. Adquira no site da Amazon





quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

A HORA DO CONTO

CHEIRO DE LIVRO NOVO
Pawlo Cidade

Imagem da internet

"Sua casa não cheirava a fumaça de fogão de lenha, nem a terra batida, como a casa de dona Perolina; muito menos a gardênias com aquele aroma doce e intenso que sempre aflorava nos fins de tarde na casa de dona Maria José. Sequer lembrava a fragrância forte da dama-da-noite, as flores do jardim de dona Antonieta. A casa de Emílio Laureano tinha um cheiro diferente. Um cheiro de livro novo".


“Ao sentir o cheiro de um livro 
apenas e se puder devore-o...”
Oscar de Jesus Klemz



OS MORADORES MAIS VELHOS do distrito diziam que ele tinha sido escritor quando jovem. Mas ninguém nunca encontrou sequer um exemplar de seus vinte e três livros publicados. Para os mais moços, o velho Emílio Laureano, primo-irmão do médico Napoleão Laureano, morto em 31 de maio de 1951, que dava nome a principal rua do distrito, não passava de um idoso, contador de causos, que saía todas as tardes para ver a passagem da cobra gigante no Rio Almada. 
Dona Antonieta, avó de Robertinho, saiu com uma conversa que Seu Emílio possuía uma estreita ligação com a serpente. Ela mesma jurou ter visto, numa tarde de 28 de dezembro, Seu Emílio acariciando a cabeça da víbora às margens do rio. Muitos disseram que dona Antonieta já não governava muito bem seus pensamentos, porém, ninguém duvidava da existência da cobra, já que bois, cavalos e cabras de vez em quando sumiam da noite para o dia, sem deixar vestígios. 
No entanto, Lili Costureira, tia de Robertinho, afirmava que era preferível que a serpente comesse os animais que as crianças do povoado. Nada mais aterrador que ver um dos seus filhos ser engolido vivo pela cobra.     
Na casa de Emílio não havia sequer uma estante. Muito menos um livro. Era uma casa pequena de um quarto, com uma sala-cozinha. Mal dava para caminhar no espaço. No centro da sala, uma mesa pequena com dois jarros, sem flores, e um buda esculpido em madeira, curvado sobre os joelhos em oração; uma espécie de abajur em forma de anjo estava entre dois porta copos de porcelana com detalhes turcos; um porta treco e um jarrinho com um pequeno pé de arruda; ao lado, encostado à parede, uma mesa de plástico, com um pequeno presépio de barro, iluminado com lâmpadas pequenas que piscavam ao lado de uma árvore de natal feita de um pequeno galho seco, coberta de algodão com bolas de vidro antigas, bem idênticas àquelas dos anos 50; dois presentes pequenos bem embrulhados, uma bola de cristal, com a imagem de uma vila coberta de neve.
Em frente à mesinha do centro estava a TV, sobre um tronco de madeira, com uma tábua plana envernizada, bem aparelhada, segurando o aparelho. Mais abaixo, dois outros suportes, um a direita e outro a esquerda, também planos, davam destaque a miniaturas de animais de madeira: um elefante, virado na direção da parede, um hipopótamo e uma onça.
Do lado esquerdo da sala se localizava a cozinha. As panelas estavam penduradas, harmonicamente, sobre uma tábua lisa que servia de estante para apoiar os condimentos e os grãos, bem como algumas vasilhas de outros alimentos como café, açúcar e leite. A pia, comprida, tomava quase toda a parede e estava coberta de copos, garrafas, escorredor de pratos e outras peças de cozinha. 
A pia ficava entre a geladeira e o fogão de quatro bocas. Antes da pia, a mesa de jantar dividia um cômodo do outro. Sobre a mesa de jaqueira, pesada, com seis cadeiras, havia guardanapos, pratos vazios e talheres bem sobrepostos como que estivessem sempre à espera de convidados. A sala-cozinha era bem iluminada pela luz que entrava pela janela ao lado da pia e a porta à direita da TV. 
A porta principal que dava acesso à rua, ficava de frente para a mesa de centro. Havia ainda uma passagem do lado esquerdo da TV que dava acesso ao quarto e ao banheiro. Do lado do banheiro, uma porta pequena, trancada por um cadeado, onde diziam os mais velhos, sobretudo dona Antonieta e Manequinha, que ali estavam escondidos os 23 livros que ele escreveu.
Nos quatro cantos da sala-cozinha, pendurados nas paredes, havia toda sorte de artefatos: pratos turcos, pintados a mão, semelhantes aos porta-copos, presente do escritor Jorge Amado quando o visitou no verão de 1973; entalhes de madeira que lembravam carrancas indígenas que não davam para definir se se tratavam de rostos humanos ou feições de animais, embora ele mesmo dissera que elas representavam a cara de cavalos; um relógio antigo, com um pêndulo comprido que ainda marcava as horas; dois quadros:  o primeiro representando um mapa mundial antigo, datado de 1633, e o segundo, meio torto, trazia o desenho das capitanias hereditárias, com destaque para a Capitania de São Jorge dos Ilhéus. Uma foto pintada de um rosto de uma mulher, de cabelos curtos, com um belo colar de pérolas e um vestido preto, olhando ligeiramente para a direita, que todos diziam ser sua esposa, se destacava no centro da parede lateral. Assim era a sala-cozinha de Emílio Laureano.

SEU EMÍLIO CRIAVA GALINHAS NO QUINTAL. Costumava alimentá-las duas vezes ao dia. Conhecia cada uma das aves pelo nome. As mais próximas eram Judith e Carmelita, enormes galinhas poedeiras que chegavam no fim da postura à extraordinária marca de sessenta ovos. Carmelita, a mais velha das aves, estava com Emílio há vinte anos. Outro fato inacreditável já que estas aves vivem em média, sete anos. Se um ano de uma galinha equivale a dezoito anos de um ser humano basta multiplicar para se ter uma ideia da incrível idade de Carmelita. 
Judith e Carmelita eram também as primeiras a dar o alerta quando aparecia alguma ousada raposa ou uma jiboia faminta. Um dia, Ana Clara, Maria Raimunda e Firmina, três galinhas mestiças de pouco mais de oito meses de idade, desapareceram. As três sumiram de uma vez. 
Seu Emílio chamou Antônio, o cachorro do vizinho, seu principal companheiro de caminhada quando ele ia visitar a cobra gigante do rio. Antônio era um vira-lata inteligente, apesar da idade. Seu faro ainda conseguia sentir o cheiro de raposa há duas léguas de distância. Eles revistaram o quintal de cima a baixo, ponto a ponto, cerca a cerca. Nenhum sinal de Ana Clara, Maria Raimunda ou Firmina. Não havia trilha de sangue, pegadas, penas soltas ou qualquer sinal de alguma raposa sem-vergonha que tivesse invadido o quintal e sequestrado as filhas de Judith. O desaparecimento das aves deixou Emílio e Antônio intrigados.
Duas semanas depois foi a vez de Judith. A velha poedeira também sumiu. Emílio enlouqueceu. Quis a qualquer custo pegar aquele ladrão de galinhas. “Se não é uma raposa, deve ser algum vagabundo!” Pensou. No entanto, não havia pegadas nem tampouco rastros no quintal. Muito menos sinal de invasão. O jeito era armar uma tocaia para pegar o bandido no flagrante. E foi o que ele fez.
Emílio pegou a espingarda, uma velha carabina Chapinaque herdou de seu pai, se camuflou todo de penas e se escondeu no galinheiro durante três noites. Mas para frustração de Emílio o ladrão não apareceu. O gatuno já devia desconfiar que alguma coisa o aguardava. 
Entretanto, na quinta noite, por volta das duas horas da madrugada, Emílio despertou com um barulho estranho no galinheiro. Pegou a arma e, pausadamente, pé ante pé, foi ao encontro do larápio. O meliante saía do galinheiro com Carmelita, já desfalecida e as asas arriadas, entre as mandíbulas. O animal esbugalhou os olhos ao ser surpreendido pelo velho. A sua surpresa só não foi maior que a de Emílio ao descobrir que Antônio, seu companheiro vespertino de caminhadas, era o ladrão. 
- E eu que pensava que você fosse meu melhor amigo! – Lamentou. Na sequência, puxou o gatilho e atirou para o alto. Não teve coragem de atirar no velho vira-lata. Antônio chorou feito bezerro desmamado. 
Até hoje, próximo às ruínas do engenho, do outro lado do rio, onde o cachorro foi se esconder após o tiro, quando o vento sopra forte na lua crescente se ouve o choro do animal, arrependido e envergonhado.  Dizem que ele morreu deprimido por não ter sido perdoado pelo velho amigo.

domingo, 3 de novembro de 2019

CRÔNICA DE CADA DIA


A SÍNDROME DE TICO E TECO
Pawlo Cidade


Tem gente que para entender uma piada, sacar uma conversa, perceber uma situação demora um tempo. Tico e Teco não funcionam como a maioria dos mortais. Diz-se das pessoas que possuem um raciocínio quase parando, lento demais. Mas vocês sabem por que a gente chama de Tico e Teco? Trata-se na verdade de uma brincadeira corriqueira entre as pessoas quando mangam de si mesmo dizendo que têm na cabeça apenas dois neurônios, o Tico e o Teco. Tico e Teco é uma referência a dupla de esquilos esquisitos, porém engraçados, que foram criados pela Disney e sempre estão aprontando bobagem.

Pois bem, ao longo da vida conheci vários caras que eram assim. Na faculdade, quando a gente se reunia para fazer um trabalho em grupo e surgiam as dúvidas recorríamos ao indispensável google. E a gente ficava até tarde da noite pesquisando. Do nada, esse nosso amigo fez a seguinte pergunta: 

- Quem é que fica até tarde no googlerespondendo estas perguntas que a gente faz? Um olhou para a cara do outro e começou a rir. Caio aproveitou e respondeu: São os Smurfs! Nova gargalhada. E ele com tico e teco tilintando sem entender.

Coisa foi quando ele disse que estava estudando para o vestibular e ouviu a notícia daquela mina que desabou em San José, no Chile, em 2010, quando 33 trabalhadores foram soterrados a 688 metros de profundidade e resgatados com vida mais de três meses depois. Ele disse que ficava pensando como aqueles mineiros foram tão longe no Chile até serem soterrados. “Mineiros” para ele era quem morava no estado de Minas Gerais.

Mas nós não estamos isentos de sofrer da síndrome de tico e teco. Nem sempre compreendemos tudo e podemos ficar horas e horas tentando descobrir uma coisa que é óbvia para outra pessoa. Eu mesmo já tive meus momentos de tico e teco, sobretudo naquelas piadas horríveis de toc toc no WhatsApp. Atenção, galera, novo golpe na praça. Tem um cara passando nas casas, vendendo peneira, não compre, é furada! Favor repassar aos outros grupos... E ainda tem gente que repassa. 

Por falar nisso, outro dia tentei pegar minha mulher numa dessas piadas de toc, toc. Só que ela foi mais rápida que eu: 

Toc, toc. Eu disse. Ela perguntou: Quem bate? Eu, todo cheio de si, respondi: Sou eu, o amor de sua vida! E ela, toda sorridente respondeu na lata:
- Mentira. Dinheiro não fala!

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

"Educar é um ato de amor"



Era setembro de 1987 quando a diretora da Escola Municipal Pequeno Príncipe me disse que eu ia dar aula na quarta série. Dei um grito tão forte de contentamento que a velha gestora quase teve um troço. Fui para casa pensando num monte de estratégias, dinâmicas, jogos, brincadeiras para deixar meus alunos com um desejo enorme de querer aprender. Eu viajava no meu quarto ensaiando as aulas como se fosse uma peça de teatro e imaginava a cara dos meninos e das meninas com os olhos esbugalhados pensando num monte de coisas.

            Meu currículo tinha sido selecionado, entre dezenas de outros, para uns contratos emergenciais que a Secretaria de Educação estava realizando. Numa das cláusulas dizia que embora fosse de três meses – também chamado por eles de período de adaptação, meu contrato poderia ser prorrogado por até dois anos, se o contratado fizesse jus e eu, certamente estava disposto a fazê-lo.

Fazer pedagogia foi uma opção muito pessoal. Tive que ir de encontro a vários obstáculos, entre eles, meus pais e minha namorada. Ninguém acreditava que eu tinha escolhido um curso que ninguém mais acredita, dá pra acreditar?

“Cara, faz medicina, isso é que é profissão!” berrava um amigo.“É melhor ser advogado ou engenheiro, porcaria de professor!” dizia outro. “Ninguém mais quer ser professor! Faz informática, meio ambiente, turismo, mas esquece isso!” Protestava meu pai.

Mas eu queria ser pedagogo, queria nadar contra toda essa correnteza de descrença. Eu não queria ser mais um, queria fazer a diferença e tinha certeza que meus alunos iriam me ajudar nisso, mesmo sabendo que as escolas ainda continuavam sendo dominadas por uma concepção pedagógica tradicional. Eu sei que podia quebrar aquela ritualização de procedimentos escolares obsoletos, semelhantes a planos pré-históricos, cujo método dominante era chamado de aula expositiva.

Estava disposto a enfrentar um monstro que não se preocupava com o exercício da cidadania, com o que os nossos alunos queriam ou não aprender; um monstro que não estava nem aí para a formação do educando que sempre foi capaz de elaborar conhecimentos, habilidades, atitudes, valores, formas de pensar e atuar nesta ou em outra sociedade. Um monstro que fez da aprendizagem sinônimo de mecanização, um monstro que não está aberto para o diálogo, nem tampouco para o processo de rever conceitos. Um monstro chamado sistema.

Acontece que eu cria nos avanços de todas as pesquisas na educação e no ensino; contava com a ciência, a tecnologia e com as aulas que despertavam o gostinho de “quero mais”. Com a força de vontade que brotava dentro de mim; com os sonhos que não morriam; com os desejos que não paravam de germinar eu sabia que podia vencer. Sabia também que só isso não bastaria. Era preciso mais do que novas metodologias, recursos didáticos ou instrumentos tecnológicos.

Todavia, minha fé na educação era maior que as dificuldades que haveriam de surgir. Minha força de vencer era a prova das coisas que eu ainda não conseguia ver, mas sabia que estavam lá, me esperando, torcendo, acreditando.

Entretanto, eu queria que eles soubessem que educar é muito mais que um sacerdócio. “Educar é um ato de amor[i]”.



Pawlo Cidade, escritor e ativista cultural.







[i] Esta frase é atribuída a Paulo Freire.

sábado, 1 de julho de 2017

“Adeus, vovô. Vou sentir sua falta também. Dá um beijo na vovó por mim”.



- VOVÔ, VOVÔ... ACORDE! Vai pra cama, já está ficando tarde. Está chovendo, o senhor não está vendo?... – Johan puxava a mão esquerda do velho. Arron permanecia calado, insensível, na cadeira de balanço que às vezes costumava por na varanda, sempre que a noite chegava, para ouvir o canto da natureza. “A melodia que vem da mata, me acalma” – Comentava. A chuva forte foi diminuindo de intensidade. O vento e os trovões pararam. Johan não tinha medo deles e, apesar do pai sempre brincar dizendo que aqueles fenômenos da natureza indicavam que Deus estava dando uma geral no céu, preferia ficar na cama, embaixo do seu cobertor amarelo, com desenhos de aviões e carros de corrida.

Entretanto, aquela noite tinha sido diferente. Saiu do quarto e foi ver porque o avô ainda não havia entrado. Arron tinha medo de trovões. Os trovões eram estrondos muitos similares às bombas que caiam sobre Amsterdam, no dia em que os alemães invadiram e dominaram o país. Arron e seu pilotão jamais esqueceu daquele fatídico dez de maio de mil, novecentos e quarenta. Eles resistiram heroicamente por cinco dias ao ataque, mas acabaram sendo forçados a depor as armas pelos tanques do exército inimigo. Ele, e mais três companheiros, entre eles, Mulisch, ficaram escondidos num buraco de esgoto por uma semana, enquanto as bombas continuavam caindo sobre a cidade. Seu olfato nunca conseguiu se acostumar ao fedor que penetrava em suas narinas durante o tempo que permaneceu como um animal acuado, em meio a dejetos humanos e ratos. Esse era também um dos motivos que “banhava-se” em perfume todos os dias, independente da visita da enfermeira Ida, como costumava brincar Johan e Sita.

“Vovô?” O pequeno Johan engoliu em seco quando percebeu que ele não respondia. Pensou em pegar um graveto e colocar na boca do avô, como fazia todas as vezes que o velho dormia de boca aberta. Mas os olhos e a boca estavam hermeticamente fechados. Ele encostou lentamente o ouvido direito no peito do avô. O coração não batia mais.

O pequeno Johan chorou. Depois, subiu no colo do avô, beijou-lhe o rosto, abraçou-o carinhosamente, e antes de adormecer disse: “Adeus, vovô. Vou sentir sua falta também. Dá um beijo na vovó por mim”.

Trecho de um livro inédito: "O Diário do Beija-Flor", de Pawlo Cidade.

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