segunda-feira, 30 de setembro de 2013

ISAQUE


Isaque estava na fase final. Do nariz escorria um sangue pastoso e a pele estava marcada com pústulas. Uma dor súbita atingiu-lhe o estômago. Ele gritou. Jacó se aproximou, pronto para ampará-lo, como fazia quando criança. Isaque estendeu uma das mãos, não permitiu que ele se aproximasse. Mas, Isaque era seu filho, seu único filho. O filho que Deus lhe dera na velhice, o filho que Deus agora requeria. Assim como Abraão, ele teria que sacrificá-lo. Não havia escolha, não havia outra saída. Jacó estendeu a arma mais uma vez, apontou para a cabeça do filho. Os poucos raios de sol que ousavam penetrar pelas frestas das tábuas, tentavam timidamente iluminar aquele pequeno ambiente. As pernas de Jacó fraquejaram. Ele tentou inutilmente manter-se de pé. Porém, a gravidade o puxava. As mãos mal podiam segurar a arma. As lágrimas embaçavam os olhos.
Jacó, como Abraão, julgava que Deus era poderoso assaz para até dos mortos ressuscitarem Isaque. Apesar da fé, a dúvida o assolava. A dúvida, que se transformava nos segundos que o separavam de uma fatídica decisão. “Como posso matar meu próprio filho! Isso não é justo!” Vociferou. Estava sendo provado. Não sabia se era uma afirmação ou uma pergunta. Seu unigênito era agora oferecido. Tentou lembrar-se das promessas que um dia Deus lhe fizera. Não conseguiu. Recobrou-se. Viu a imagem de Isaque, ajoelhado, clamando pelo fim. Se Deus enviou seu anjo e impediu Abraão de sacrificar o filho, faria o mesmo com seu Isaque, prestes a morrer pelas suas mãos.
“Meu filho traz consigo Abadom”. Meditou. E ele não se referia unicamente ao vírus. Mas àquele predito no Livro da Revelação, após a quinta trombeta do anjo onde o profeta dizia ter visto uma estrela que do céu caíra sobre a terra; e foi-lhe dada à chave do poço do abismo. E abriu o poço do abismo, e subiu fumaça do poço, como fumaça de uma grande fornalha; e com a fumaça do poço escureceram-se o sol e o ar. Da fumaça saíram gafanhotos sobre a terra; e foi-lhes dado poder, como o que têm os escorpiões da terra. Foi-lhes dito que não fizessem dano à erva da terra, nem a verdura alguma, nem a árvore alguma, mas somente aos homens que não têm na fronte o selo de Deus. Jacó estava falando de Satanás.
Ele cerrou os olhos. E como numa tela de cinema, viu a infância inteirinha de Isaque sobrevoar Telaviv; viu ainda sua adolescência, a mudança para Jerusalém, o atentado que o deixou surdo do ouvido esquerdo, a morte de sua mulher. E mais uma vez foi invadido por uma indagação que comprimiu seu coração até faltar-lhe o ar: Porque deveria ser ele o carrasco de sua própria descendência? A pergunta surgiu como um sinal de perda. Uma falta, indubitável, de fé. Pediu misericórdia. Abriu os olhos. Isaque, de braços estendidos, balbuciando uma prece, estremeceu. Pai e filho se entreolharam por uma fração de segundos. Nos olhos de Isaque o desenho inexprimível de um adeus; nos olhos de Jacó, um pedido lânguido de perdão. O silêncio daquele abrigo foi entrecortado pelo disparo que ecoou de uma ponta a outra do bairro antigo de Jaffa.


(Trecho de um romance que eu nunca terminei sob o título de “Isaque.”)

domingo, 2 de junho de 2013

CARTA DE UMA LEITORA DE ILHÉUS


Cara Fabrini,

Que bom que você gostou de ler "O Caminho de Volta". Ao afirmar que quando começa a ler o livro imagina que os gansos estão ao seu lado isso me faz crer que você se envolveu de corpo e alma na trama. E esse foi meu objetivo ao escrevê-lo. Quero muito ver o telejornal. Já combinei com sua professora que farei uma visita à vocês no mês de julho. Só estamos amarrando as datas. 

Quanto à minha inspiração, ela parte das pessoas que estão mais próximas de mim ou até mesmo das pequenas coisas que nos ocorrem no dia-a-dia. Muitas vezes não damos valor "as pequenas coisas", como um "bom dia" a um amigo, por exemplo. Eu valorizo muito isso. Uma outra coisa que gosto de fazer muito é batizar os personagens com nomes de pessoas que eu conheço ou que são do meu círculo familiar, como a gansa "Vivi". Este apelido é da minha esposa Viviane. E a personagem foi inspirada nela. Juninho foi baseado no meu sobrinho, Patrick e assim por diante. Inclusive ele é personagem de um livro inédito chamado "O Menino que sonhava com dragões," também de minha autoria.
Até o nosso encontro.

Um abraço,

Pawlo Cidade

NOTA: A professora Rita, da Escola Nucleada de Castelo Novo, distrito localizado a 25km de Ilhéus, adotou "O Caminho de Volta". Recebi dezenas de cartas iguais a esta, falando sobre o livro. Responderei à todas elas, pessoalmente.

sábado, 1 de junho de 2013

DO LIVRO INÉDITO "PÉROLAS AOS PORCOS"



BOOMERANG
  
Os inimigos dormem em camas de vidro.
Quando eles jogam pedras no seu telhado,
Repousam como se os seus aposentos
Não fossem se despedaçar.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

O CAMINHO DE VOLTA



O maior prazer do escritor não é publicar um livro. Sua maior satisfação é saber se o seu livro é lido. Melhor ainda é ter retorno sobre o que você escreveu. E foi isso que fizeram os estudantes da rede pública de ensino da Escola Nucleada de Castelo Novo. Orientados pela professora Rita Aparecida, eles voaram junto comigo para fugir de um rigoroso inverno canadense, em busca de abrigo e alimento. O inverno frio, com contínuas tempestades de neve os forçava a emigrar. Claro que não estou falando dos estudantes da Rua Napoleão Loureano, do distrito de Castelo Novo, (que também já foi cenário de um dos meus livros: “O Tesouro Perdido das Terras do Sem Fim”), mas, dos gansos Ivan, Vivi, Coró, Tárcia, Cláudio, Osmar, Juninho e Gambão personagens do livro “O Caminho de Volta”, adotado pela professora.
Recebi de Rita uma dezena de cartas me convidando para visitá-los. “Será de grande honra para mim e meus colegas”, diz Fabrini Gomes, uma das alunas; “Li o livro O Caminho de Volta e gostaria de conhecê-lo”, escreve Alan de Jesus; “Eu entendi que ninguém dava nada por Ivan mas ele conseguiu provar que não precisa ser forte fisicamente para conseguir algo e sim nós devemos ter força de vontade, coragem para conseguirmos atingir os nossos objetivos,” explica Thaís de Oliveira em outro carta; “Eu aprendi muitas coisas importantes lendo seu livro, eu aprendi que para ser herói não precisa ter força e sim inteligência e caráter,” declara Brenda Cruz; “Gostei da sua criatividade em inventar cada personagem com sua fala e seu jeito de ser, e de pensar especial é muito forte que até podemos sentir que estamos dentro do livro,” disse Daniela Leal em um trecho de uma outra carta.


E assim fui lendo, e li mais de uma vez, todas as cartas. Vou responder cada uma delas, sobretudo o grande número de perguntas que cada um fez: “O senhor estudou em escola pública?” “Tem alguma pessoa na sua família que é um herói ou heroína?” “O senhor pediu ajuda a alguém para escrever o livro?” “Você se inspirou em alguém para criar os personagens?” Jeciane Oliveira disse que iria fazer um milhão de perguntas quando eu fosse visitar a escola. Eles estão preparando um trabalho sobre o livro. Quer dizer, sobre os livros, porque também estão lendo “As Aventuras de João e Maria”, uma releitura que eu criei sobre o clássico dos Irmãos Grimm.


Rita, você não é uma professora. É uma educadora. Sinto-me privilegiado por ter sido o autor escolhido por você para despertar a leitura num mundo onde o facebook, o twitter e o quase finado Orkut conseguem atrair milhares de jovens. Fico emocionado, feliz, eufórico, querendo gritar, pular, dançar por saber que existem pessoas como você que se preocupam com o futuro de seus alunos. Sobretudo aqueles que moram em nossos distritos. Obrigado por escolher um autor regional, com histórias que vão muito além da territorialização, para mostrar aos leitores, sobretudo os meus de Castelo Novo, da Rua Napoleão Laureano, da Rua Nossa Senhora da Conceição, que podemos ir longe, muito longe, apenas lendo. Obrigado, Tainara Batista, Maiana Dias, Ariana Oliveira, Vanessa Ferreira, Gleice Kelly, Caline Batista, Jeciane Oliveira, Daniela Leal, Brenda Cruz, Thaís de Oliveira, Alan de Jesus, Fabrini Gomes por terem compartilhado comigo a alegria da escrita, o caminho da aventura e a saída para a liberdade.
Ler é uma viagem. Até a próxima aventura.

Matéria a ser publicada no Diário de Ilhéus, na coluna Coxia. Ilustrações de Bruno Santana para o livro "O Caminho de Volta" , editado pela Via Litterarum Editora, 2010.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

CRÍTICA LITERÁRIA



O que tem Maria Amélia com os amores de Caetano?
Por Pawlo Cidade[1]

Chegou às minhas mãos a obra de Chiquinho. Face a leitura fácil, gostosa e esclarecedora, me vejo às voltas de um historiador que, além de contar com esmero os fatos, causos e acontecimentos de sua Terra natal, sabe como ninguém que a memória é o essencial – como diria Jorge Luis Borges – “visto que a literatura está feita de sonhos e os sonhos fazem-se combinando recordações.”

Pois é o que vemos ao ler “Cidade Tobogã”, livro que conta a história da cidade de Ibirapitanga (distante 106 km de Ilhéus), a cidade que “nasceu entre os rios Cachoeira do Pau e Revés.” Como também sou um contador de causos e histórias, saltei alguns capítulos e fui logo conhecer as curiosidades e acontecimentos que tiveram como protagonistas diversos moradores como Antonio Aragão, Mestre Né, Gia que deixaram registrado uns chavões como o título que leva este artigo sobre o livro. Me diverti mais ainda ao conhecer os apelidos exóticos que a saudosa “Cachoeira do Pau” abrigou como Barriga, Cheiro, João Relento, Calango, Beiju, Zoi de Porco e Boca Mole que de mole não tinha nada.

Todavia, “Cidade Tobogã” abriga muito mais que causos e apelidos, traz em cada página, as recordações e as notícias, quase em forma de crônicas, sobre questões como o plebiscito que emancipou Ibirapitanga por apenas um voto; as festas populares, representadas pelo Bumba-meu-boi, o Terno de Reis, o Carnaval, a Festa da Páscoa, Santo Antonio, São João e São Pedro, “ao som das músicas juninas os rapazes, moças, velhos e velhas, dançavam agarradinho e funga-funga, esquentando as noites frias do mês de junho. Era um tempo bom,de alegria, no ritmo do “chiado da chinela” e da beleza dos fogos que explodiam nas redondezas”, relata Chiquinho.


“Chiquinho”, (no centro da foto) que outrora fora batizado de Francisco Quinto de Souza Neto, ficou mais conhecido pelo apelido que pelo nome sem, em nenhum momento, ser desmerecido pela alcunha que, certamente, o imortalizará. “Chiquinho” traduz a simplicidade, o sorriso simpático, a conversa serena, o discurso pragmático e a introdução segura com que aponta cada um dos seus capítulos das duas partes em que o livro está dividido.

Eu, não tenho dúvidas que este “Cidade Tobogã” será para os moradores de Ibirapitanga uma bússola, um registro vivo de sua história, de sua gente, escrita – como bem afirma minha amiga e poeta Geny Xavier - “a partir do olhar atento e afetuoso de um cidadão ibirapitanguense que, pelo afeto à sua cidade natal e pela vivência social, cultural e política, se fez conhecedor de muitos aspectos que determinam a história desse município.”

Parabéns, Francisco Quinto, sei que tens muito ainda a contar. Afinal, mesmo que Maria Amélia não tenha nada a ver com os amores de Caetano, não poderia deixar de parafrasear  Mestre Né, o  saudoso intérprete da voz de Vicente Celestino que bradava que cachorro só Surubim; espingarda só de cartucho; mulher só Áurea e memorialista de “Cachoeira do Pau” só Chiquinho!



[1] Escritor, crítico literário, membro da Academia de Letras de Ilhéus.

sábado, 8 de setembro de 2012

ENTRE LIVROS E LETRAS, VOU "TOCANDO" O BARCO. NEM SE EU FOSSE MÚSICO.


Estou fazendo uma disciplina de Gestão Matricial e Compartilhada do Espaço Público, coordenada pela Fundação Getúlio Vargas. Ela faz parte do Curso de Gestão das PECs - Praças dos Esportes e da Cultura. Esta disciplina irá nortear a criação de um Conselho Gestor, formado pelo governo e pela sociedade civil, com objetivo de se criar uma gestão compartilhada para a PEC. É uma disciplina online que permite escolher os dias e os horários para estudá-la.

Tenho ainda que participar do processo de seleção do Mestrado de Letras: Linguagens e Representações, da Universidade Estadual de Santa Cruz. Confesso que não é fácil. Preciso dedicar um tempo para atualizar meu currículo Lattes, elaborar meu pré-projeto, re-organizar toda a documentação necessária e partir para a seleção.

Estou ainda pensando na possibilidade de escrever um projeto para o Fundo Nacional de Cultura para a Academia de Letras de Ilhéus. Mas, pelo andar da carruagem, não conseguirei tempo.

Paralelamente, vou ajudando na coordenação da atualização e cadastramento dos dados de artistas, equipamentos e atividades culturais para um banco de dados do Sistema Municipal de Informações e Indicadores Culturais da Fundação Cultural de Ilhéus. Instrumento importante para as próximas ações governamentais. Criei um blog a respeito onde irei alimentar todas as informações que forem chegando. Inventei ainda de escrever “editoriais” para o Diário de Ilhéus, como se já não bastasse minha coluna semanal de Teatro, a Coxia, do Caderno 2, que sai aos sábados.

Pra completar, tenho que escrever a peça infantil “A Arca de Noé” até 20 de setembro para concorrer ao Edital da Funarte de Montagem Teatral Miryan Muniz. Iniciei as primeiras cenas, mas, tive que interromper para preparar uma pregação sobre Humildade que darei no dia 09 de setembro, domingo, na Igreja Missionária Evangélica do Betel Brasileiro. Toda a minha pregação estará pautada na passagem de Lucas 14:7-11. Uma parábola sobre os primeiros assentos e os convidados.Todo mundo tá convidado.

Não posso deixar de concorrer ao Prêmio Nacional de Novelas Históricas, promovido pela Fundação Pedro Calmon. Já defini o tema, criei um título, tracei o primeiro capítulo. Tenho até 20 de outubro para terminar e enviar. Ele vai ser baseado numa obra escrita pelo meu bisavô em 1897.

Tenho que terminar o livro “Ilhéus Tem” – uma espécie de guia turístico diferente, ainda este mês, para entregar a Editora; Estou também devendo uma série de livros infantis, com histórias curtas, sobre um tema bastante conhecido do grande público. Comecei a escrever um, “O Menino que sonhava com dragões”, mas ele tá parado, esperando que eu continue. Tenho medo de ser queimado pelos dragões. Eles já tentaram fugir uma vez, mais o herói da história conseguiu mantê-los enjaulados.

Pra completar tenho que criar o espetáculo final do Curso Anual de Iniciação Teatral que termina em novembro. Acho que vou encerrá-lo na última semana de novembro. Comecei a criar alguma coisa com os alunos. Mas, não me agradou. Preciso pensar em algo rápido.

Estamos atrasados com as reuniões do Fórum de Agentes, gestores e empreendedores culturais do Litoral Sul e na definição de uma data para uma oficina de elaboração de projetos culturais.

Bem, escrever é bom. Por isso não me desespero. Vou tocando o barco, resolvendo meus compromissos, fortalecendo minha fé em Deus e lendo. Lendo muito.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

APRESENTAÇÃO DO LIVRO "O SEQUESTRO DOS RAIOS DE SOL" NA FEIRA LITERÁRIA LER AMADO

No dia 09 de agosto contei histórias para um grupo de crianças da escola pública. Na oportunidade, além de sortear um livro, apresentei meu mais novo rebento: "O Sequestro dos Raios de Sol", uma peça de teatro que transformei em literatura.

 Alguma coisa de ruim está acontecendo na floresta...

 Quem foi que sequestrou os raios de sol?

Quem é o culpado pela destruição da camada de ozônio?

 Quem obriga populações inteiras de insetos e animais a fugirem do seu habitat natural?

 Quem são os responsáveis pela mudança dos leitos dos rios?


Todas as respostas estão em "O Sequestro dos Raios de Sol", já à venda na Editora Via Litterarum e na Livraria Papirus, em Ilhéus, na Bahia.

PRÉ-VENDA LIBERADA! "Greta Garbo, quem diria, esteve em Ilhéus!"

  O aguardado livro "Greta Garbo, quem diria, esteve em Ilhéus!", do autor Pawlo Cidade, já está disponível para reserva. Garanta ...