sábado, 14 de abril de 2012

A POLÍTICA DO TEATRO E O TEATRO DA POLÍTICA

Cena da peça "O Inspetor Geral", de Romualdo Lisboa
Para entender o enunciado acima, é preciso primeiro entender o conceito de Política. A palavra tem origem nos tempos em que os gregos estavam organizados em cidades-estado chamadas “polis”, nome do qual se derivaram termos como “politiké” (política em geral) e “politikós” (dos cidadãos, pertencente aos cidadãos). No sentido comum, vago, e às vezes um tanto impreciso, política, como substantivo ou adjetivo, compreende arte de guiar ou influenciar o modo de governo pela organização de um partido político, pela influência da opinião pública, pela aliciação de eleitores. É o que diz a Wikipédia.
Pois bem, tomando-se política no sentido etimológico do termo, concordar-se-á que todo Teatro é necessariamente político, visto que ele insere os protagonistas na cidade ou no grupo. A expressão designa, de maneira mais precisa, o teatro de agit-prop (termo proveniente do russo agitatsiya-propaganda/agitação e propaganda. É também uma forma de animação teatral que visa sensibilizar um público para uma situação política ou social, como as peças “Teodorico Majestade” e “O Inspetor Geral”, do Teatro Popular de Ilhéus), o teatro popular, o teatro épico brechtiano e pós-brechtiano, o teatro documentário, o teatro de massa, o teatro de político-terapia de Augusto Boal. Estes gêneros, segundo Patrice Pavis, têm características comuns a uma vontade de fazer com que triunfe uma teoria, uma crença social, um projeto filosófico. A estética é então subordinada ao combate político até o ponto de dissolver a forma teatral no debate de ideias.
Toda essa premissa fez-me analisar situações na Política do Teatro onde encontramos atores, atrizes e, sobretudo, diretores, que acreditam no processo de criação como a arte de fazer de qualquer jeito, para um público que ver de qualquer jeito. E não é diferente do Teatro da Política onde se faz de tudo para se alcançar um objetivo, mesmo que os meios ou os princípios precisem ser ignorados. Não sei fazer política – como bem a entendem meus amigos Silmar e Odilon – mas, por força do meu trabalho, faço política na arte em que exerço. Não, por uma questão de princípios, mas, por entender que ela não está separada da Cultura. Mesmo que alguns intelectuais ou artífices pensem de forma divergente.
Afinal, faço política desde que montei minha primeira peça “politicamente incorreta”: A Piranha e o Baiacu, em 1988. É fato que, se Antonio Olímpio tivesse assistido, diria que criar um prato com esses peixes, seria algo, no mínimo, esdrúxulo. Embora a peça trata-se de um tema conhecido de todos: o amor impossível.
Por fim, tanto no Teatro, como na Política, estabelecemos um jogo onde são lançadas as peças. Entretanto, não devemos esquecer que – como bem afirmou Maquiavel – a Política é a arte de conquistar, manter e exercer o poder.
O Teatro é a arte de conquistar, manter e exercer uma atividade em busca de sentido.



segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

O POÇO DOS DRAGÕES


Meia hora depois, Felipe chegou. Trazia com ele um daqueles megadróides inimigos de Ben 10, o Boss. Patrick foi logo perguntando:
- Quem te deu este megadróide, Felipe?
- Meu tio.
- Ele solta lasers pelas mãos?
- Não.
- Então não presta!
- Presta sim. Ele faz furacões com as pernas.
- É mesmo?
- Brincadeira. – Riu.
Eles caminharam na direção do quarto. Patrick se agachou e puxou uma caixa de papelão grande, cheia de brinquedos velhos, que estava embaixo da cama. Remexeu até encontrar um arco ãopequeno e uma espada de madeira.
- Tome! – Entregou a espada ao primo.
- Pra quê? Já tenho meu megadróide.
- Ele solta raios azuis?
- Não.
- A minha espada solta. Você vai precisar dela.
- Pra quê?
- Pra gente lutar contra o dragão.
- Dragão? Que dragão? – Perguntou com medo.
- Larga de ser medroso, Felipe. É um casal de dragões que moram no poço do quintal. A gente vai acabar com eles antes que eles invadam a Terra.
- Não existe dragão no quintal.
- Existe sim. Eu mesmo já vi.
- Viu?
- Nos meus sonhos.
- Sonhos? E quem disse que sonho é de verdade?
- O meu é. – Ele pendurou o arco no ombro e foi saindo do quarto. – Vem comigo. Eu vou te mostrar.
- Eu? – Felipe sentou na cama.
- Você é homem ou não é?
- Sou um menino. – Riu de novo.
- Então eu vou sozinho. – Saiu em passos largos para o quintal. Felipe não teve outra alternativa, senão segui-lo. Os dois abriram o portão de madeira que separava a cozinha do quintal e foram se aproximando, vagarosamente, do poço antigo. Antes, pararam embaixo de uma sapucaia de folhas grandes e carnosas de um violáceo-pálido. A árvore, também chamada de Cumbuca-de-macaco, servia de abrigo para um casal de Maçaricos-do-bico-torto.
- É ali que eles estão. – Patrick sussurrou, apontando para o poço antigo.
- Como você sabe? – Indagou Felipe baixinho.
- Minha mãe me disse, meu avô contava e meus sonhos também.
- Dragões não existem! Nem os da televisão são de verdade. – Insistia Felipe.
- Silêncio! – Ele colocou o dedo cruzando a boca. De repente, a brisa cessou. Os pássaros pararam de gorjear. Os olhos dos meninos arregalaram. Patrick, de preto, ficou branco; Felipe quase urinou nas calças; o casal de Maçaricos-do-bico-torto se assustou. O rugido que ecoou do poço não parecia de um boi; nem tampouco de um leão. Era tão forte que as tábuas que fechavam o poço estremeceram.
- Roaaaaaaaaaaaaaarrrrrrrrrrrrrrrrrr!!!!!!!!!!!!!!!!
Patrick procurou algo para se segurar. O coração batia mais forte que o despertador de seu pai. Quando olhou para Felipe, o primo já tinha fugido. Correu mais rápido que o papa-léguas para casa. O segundo rugido veio mais forte e mais demorado. Uma fumaça parecida com a de uma panela-de-pressão escapou pelas aberturas das tábuas do poço. Patrick largou o arco e a coragem embaixo da Cumbuca-de-macaco  e voltou apavorado para casa. Será que o dragão sabia que eles estavam ali?
(Trecho de uma pequena história que estou escrevendo entitulada: "O menino que sonhava com dragões" que poderá ser lançado em breve)

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

TODO MUNDO QUER UMA PONTA


Cerca de mil e noventa e seis pessoas se cadastraram na pesquisa para figuração que uma produtora terceirizada da Globo realizou na última quinta-feira em Ilhéus. Foi interessante observar como todo mundo quer uma “ponta” na nova novela das onze horas que terá algumas cenas gravadas nas roças de cacau. E, de fato, será mesmo uma “ponta” já que aqueles que forem escolhidos pela assistência de direção apenas farão lavadeiras, trabalhadores rurais e peões. Os figurantes são o pano de fundo das cenas principais.

A “ponta” é uma gíria teatral - e também de televisão - que se usa para indicar aquele que terá um papel pequeno, sem qualquer fala. Diferente do “ponto” que era aquele que antigamente lia em voz baixa as falas do texto que deviam ser repetidas em voz alta pelo ator. O ponto ficava instalado num alçapão localizado no centro baixo do palco, escondido do público por uma proteção curva que ajudava a projetar o som de sua voz para o fundo da cena. Embora os atores não utilizem mais o recurso do ponto, essa função, hoje em dia, pode ser eventualmente substituída por aparelhagem eletrônica. Em algumas casas de ópera, porém, ainda é usado o ponto tradicional.

A “ponta” é sinônimo de figurante e figuração. É aquele que participa de cenas de multidão preenchendo espaços na composição criando climas ou compondo a ambientação. O conjunto de figurantes de um espetáculo teatral ou ópera é também chamado de figuração.

No linguajar teatral também utilizamos um outro sinônimo para “ponta”. Trata-se da “comparsaria”, que também é o nome dado ao conjunto de atores que tomam parte no espetáculo em aparições esporádicas ou cenas de multidão. Enfim, ponta, figurante, figuração ou comparsaria, o importante mesmo para aquelas centenas de pessoas que compareceram à pré-seleção da novela Gabriela é aparecer. É ser visto.

Infelizmente, o Teatro, não consegue exercer, para a grande maioria da população, o fascínio que a TV exerce. O teatro representa, na televisão, um papel que não deve ser negligenciado. Todo um público só verá teatro sob a forma de uma retransmissão, de uma gravação ou de um teleteatro. Nunca ao vivo. “É capital, como bem afirma Patrice Pavis, refletir sobre as relações destas duas artes e sobre as transformações sofridas pelo evento teatral, quando transformado em programa de TV.”

A telinha, no coração da casa, é o ponto (não o “ponto”) de atração e o cordão umbilical que liga a alguém nalgum lugar que mal situamos. No Teatro, o próprio espectador faz sua triagem nos signos da representação, na televisão (como no cinema), uma crítica do sentido já foi efetuada para ele no enquadramento, na montagem, nos movimentos de câmera.

De qualquer sorte, eu ainda prefiro o Teatro. Mesmo que haja “teatro” na televisão e que a última palavra para dar sentido ao espetáculo parta de uma encenação fílmica. Ou a foto acima diz o contrário? Rs.

sábado, 22 de outubro de 2011

Resumo da mesa “Paradidáticos e sua Importância para a Educação” - Ubiratan Castro, Pawlo Cidade e Silvino Bastos



Ubiratan Castro, Pawlo Cidade e Silvino Bastos discutiram o conceito de paradidáticos, seu uso e suas consequências para a educação com a mediação de Nildon Pitombo.

Latidos, miados, batidas de pé, apertos de mão, palmas e uma fábula de Millôr Fernandes são a maneira de Pawlo Cidade, escritor com formação teatral, usou para mostrar, através da interação com o público, o que é possível produzir quando se foge do convencional. Ubiratan Castro explicou que a arte também é uma forma de conhecimento: “nossa epistemologia deve ser baseada na diversidade”, afirmou.

Os autores discutiram o desafio de se fazer literatura para os jovens, que preferem ver filmes a ler livros. Para Pawlo, escrever para a juventude é difícil porque pensamos que estamos produzindo para uma categoria, mas estamos sendo lidos por outra. O paradidático acaba sendo um livro que o aluno tem a obrigação de ler. “Por que indicar um livro em vez de deixar que o ele escolha?”, questionou.
O discurso literário, assim, invade cada vez mais o discurso histórico, tornando-se um desafio para o narrador que está amarrado na pesquisa. “A literatura tende a ser mais universal do que a literatura, explicou o professor Bira.

Silvino culpou a falta de histórias de ficção científica pelo que ele chama de “apagão tecnológico”. Questionou a falta de histórias do cotidiano no lugar das histórias fora do nosso ambiente cultural. Escritor explicou que o paradidático pode melhorar o aprendizado das crianças de maneira real, e mencionou um estudo em que crianças com menor desempenho escolar melhoraram 30% após o uso do paradidático, enquanto as crianças com bom desempenho não apresentaram melhora. Nildon completou: “Cultura não é para ser um objeto da transversalidade na caixinha dos parâmetros curriculares”.

Falando do e-book, os autores discorreram sobre suas crenças na continuidade do livro impresso. Pawlo enfatizou que o livro analógico não tem baterias e não precisa “salvar antes de fechar”. Silvino lembrou que é comum ver pessoas na praia com livros de bolso: “há espaço para todos, e por isso o livro impresso não vai acabar”, comentou.

Os autores encerraram pedindo a todos que lessem mais, especialmente os pais, para servirem de exemplo aos filhos.



terça-feira, 18 de outubro de 2011

Autores debatem mudanças didáticas para tornar literatura atrativa na escola


 Autores afirmam que professores estão no centro
das mudanças desejadas (Foto: Lílian Marques/G1)

O segundo dia da Festa Literária Internacional de Cachoeira (Flica 2011), nesta quarta-feira (12), começou por volta das 10h no Conjunto do Carmo, na Praça da Aclamação. Mediada pelo assessor especial da Secretaria de Educação da Bahia, Nildon Pitombo, a mesa “Paradidáticos e sua Importância para a Educação” levantou debates sobre o conteúdo dos livros usados nas escolas brasileiras e formas de despertar o interesse dos alunos pela literatura.

Participaram da discussão o historiador baiano, diretor geral da Fundação Pedro Calmon (FPC) e membro da Academia de Letras da Bahia, Ubiratan Castro, o escritor, pedagogo e membro da Academia de Letras de Ilhéus, Pawlo Cidade, e o engenheiro, pesquisador e presidente dao Comitê de autores da Câmara Baiana de Livro, Silvino Bastos.

O local da palestra ficou lotado. De acordo com a assessoria do evento, todas as mesas da Flica tiveram as inscrições esgotadas. O auditório tem capacidade para 250 pessoas sentadas. A organização da Flica informou que só vai divulgar o número de pessoas que circularam pela festa após o fim do evento, no domingo (16).

O historiador Ubiratan Castro começou a discussão da mesa falando da importância de retratar a história nos livros didáticos e paradidáticos.“Cultura passa distante dos currículos escolares. Parece que cultura é só o que a lei determina. Não gosto muito da palavra paradidático, prefiro trabalhar com o conceito de literatura científica, que é aquele que apresenta o resultado e o método usado na pesquisa. Só há ciência quando se mostra como foi feito o estudo, como se chegou ao resultado apresentado. Hoje, o trabalho de um historiador é o de um cientista”, diz. 

(...)

O professor e escritor Pawlo Cidade levantou a discussão de que o professor é agente fundamental nesse processo de mudança, de tornar interessante o material e os métodos usados em sala de aula. Cidade fez uma breve demostração do que pode ser feito durante uma brincadeira com o público presente na Flica na manhã desta quarta-feira. Ele usou o texto de uma fábula para estimular os presentes com respostas dadas através de expressão oral e gestos. Em poucos minutos, o que se viu foi um público interado e envolvido com a brincadeira.

“Talvez não tenhamos paradidáticos daqui a alguns anos. A revolução deve passar pelo professor. É preciso se sensibilizar para depois sensibilizar. É dessa forma que trabalho com os meus alunos. É necessário também que o professor goste do que faz. Do contrário, não vai conseguir 'tocar' o aluno. A escola ainda não conseguiu se transformar em um polo produtor de leitores. Isso é preciso”, analisa.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

POEMA SEM POESIA


O grande poeta Fernando Pessoa imortalizou um verso que acusa o poeta de ser um fingidor. “Finge tão completamente que chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente.” Talvez, esse não seja um dom somente dos poetas, mas, de todos os artistas. Sobretudo, os artistas de Teatro.

Entretanto, hoje não vou escrever sobre Teatro. Vou falar de poesia. O título desta coluna remete a um poema de Nivaldo Melo, escrito em abril de 2002. Não conheço Nivaldo, mas, fui apresentado a ele através de seus versos pelo meu amigo e irmão, José Teles. Um ávido leitor e colaborador deste jornal, entusiasta da cultura e apreciador da boa literatura.

Pois bem, Nivaldo Melo é um desses poetas que cativa a gente pela simplicidade de seus versos que falam diretamente ao coração. É um homem que “fala com Deus” e sente-se pequeno diante da tragédia humana ao ter uma “visão estarrecida” do nosso querido planeta onde “tombam seres providos de alegria, num contra-senso, em volúpia fria, neste desprezo aos ideais mais puros!”

O poeta percorre pela infância, lembra do sertão e seu povo sofrido “em notado afano”. Como ele mesmo diz:
“Vê-se euclidiano
Um timbre espartano...
- Zabelê zanzando,
Perdiz no seu passo
Em lento compasso,
De modo tão lasso,
Piando... piando.”
Descreve com sutileza os gestos da mulher virtuosa e ressalta a sua beleza “de claro fulgor, em franca harmonia ao leve frescor dos dias amenos”. Ensina-nos, com sua poesia a “lição do perdão”, nos mostra o retrato da “mendicância” e, abstrato, titula alguns de seus poemas de “Mesmo Assim”, “Depois” e “Reflexão” afirmando, sem meias palavras que:
“Tudo hoje é antítese do que quero
Se apenas só tenho o que verbero
Num íntimo pesar do inconformismo”.

Pois é, Nivaldo, a “poesia é hoje a álgebra superior da metáfora”, já dizia José Ortega y Gasset. Se há poema sem poesia, certamente – e você há de concordar comigo - não haverá poesia sem um poema. Mesmo que falemos com as estrelas e reconheça Deus como nosso Criador. Obrigado, Teles, por ter me apresentado Nivaldo Melo. É bom saber – e isto é o poeta quem diz - que:
“Neste sofrimento a dor desafia
O sono plácido de quem escala
Guapos escalões do poder que exala
As leis que tornam-se já esmaecidas!...
Saudosos risos em ternos impulsos
São lembranças de benfazeja esfera
Quando malgrado vai crescendo a fera
Em cada canto a cruciar as vidas”.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

O Conflito Dramático


O Teatro é um conflito. O elemento básico, essencial a ação dramática, na qual se desenvolve em função da oposição e luta entre diferentes forças. Ator e personagem se estranham, mas, ao mesmo tempo se encontram, se completam. O conflito é determinante. Ele aponta a direção, estabelece o diálogo e permite que a ação teatral ocorra até atingir o clímax.
Há que se afirmar que o “conflito dramático é a marca da ação e das forças opostas do drama”, acentua Olga Reverbel. E acrescenta: “Há conflito toda vez que duas ou várias personagens tem atitudes, ideias ou visão do mundo opostas: amor/ódio, opressor/oprimido etc”.
Segundo Patrice Pavis, de acordo com a teoria clássica do teatro dramático, a finalidade do teatro consiste na apresentação das ações humanas, em acompanhar a evolução de uma crise, a emergênciae a resolução de conflitos. O conflito tornou-se a marca registrada do teatro. Entretanto, isto só se justifica para uma dramaturgia da ação (ação fechada). Outras formas (a épica,por exemplo) ou outros teatros (asiáticos) não se caracterizam pela presença nem do conflito, nem da ação.
Há conflito – acrescenta Pavis – quando um sujeito (qualquer que seja sua natureza exata), ao perseguir certo objeto (amor, poder, ideal) é “enfrentado” em sua empreitada por outro sujeito (uma personagem, um obstáculo psicológico ou moral). Esta oposição se traduz então por um combate individual ou “filosófico”; sua saída pode ser cômica e reconciliadora, ou trágica, quando nenhuma das partes presentes pode ceder sem se desconsiderar.
Hegel relata que “a ação dramática não se limita à realização calma e simples de um fim determinado; ao contrário, ela se desenrola num ambiente feito de conflitos e colisões e é alvo de circunstâncias, paixões, caracteres que a ela se contrapõem ou se opõem. Tais conflitos e colisões geram, por sua vez, ações e reações que tornam, em dado momento, necessário seu apaziguamento”.
Na maioria das vezes, o conflito é contido e é mostrado ao longo da ação, constituindo-se em seu ponto alto (o clímax). Mas o conflito pode ter sido produzido antes do início da peça: a ação é apenas a demonstração analítica do passado. Se a personagem espera o momento final da peça para conhecer o segredo da ação – alerta Pavis, o espectador conhece de antemão a saída para ela.

domingo, 29 de maio de 2011

NOSSO PARTIDO É A CULTURA

Bloco Afro Mini-Kongo

Todas segundas quintas-feiras do mês, o Fórum de Agentes, Empreendedores e Gestores Culturais do Território Litoral Sul é convocado para uma conversa sobre os principais acontecimentos da Cultura no país e na região. Desde que foi criado, em 2008, o Fórum vem promovendo ações de qualificação de pessoal ligadas à arte e à cultura do Litoral Sul, a princípio, por meio da Universidade Estadual de Santa Cruz, como o curso de extensão em Gestão Cultural, o Seminário de Pontos de Cultura, o encontro do Proler, a escola de sanfoneiros que ocorrerá nos próximos dias.
Entre suas finalidades está a que propõe projetos comuns, integrados ou não, entre os Municípios membros, Territórios e pleitear financiamento junto ao poder público e iniciativa privada, nacionais e internacionais visando a ampliação das ações e atividades do Fórum. O FORTEATRO-SUL – Formação em Teatro e Cidadania do Território Litoral Sul é um exemplo disso e será realizado em dezessete das vinte e seis cidades que compõem o Território de Identidade. São três dias de oficinas de cenografia, iluminação, produção cultural, interpretação, música de cena, maquiagem e gestão de grupos.
Nesta nova gestão, presidida pelo Escritor e Produtor Cultural Pawlo Cidade, em parceria com Maria Conceição (gestora cultural da cidade de Una) e Alessandra Barreto (UESC) eles pretendem criar um ciclo contínuo de colóquios sobre Políticas Culturais e Ferramentas da Produção Cultural no sentido de estimular a geração de ideias, o pensar coletivo e colaborativo, o fortalecimento da economia criativa como fonte de geração de emprego e renda, a troca de informações e conhecimentos entre os integrantes, bem como firmar parcerias com órgãos públicos e privados, ONGs, voltados para interesses da arte e cultura.
A nova gestão do FAEGSUL acredita que a Política Cultural deve se ocupar da ação cultural com um sentido de continuidade, “ao longo de toda a vida e em todos os espaços sociais”, solidificando as políticas de Estado, capazes de estimular os sujeitos para que produzam a “arte e a cultura necessárias para resolver seus problemas e afirmar e renovar sua identidade”.
“Somos capazes de engendrar um plano que permita o diálogo entre todos os segmentos artístico-culturais, a comunidade e o próprio Estado. E isso só será possível a partir do momento em que pensarmos de forma coletiva e colaborativa passando a ser a ferramenta que irá possibilitar a difusão, o acesso e a sustentabilidade da arte”, afirma Cidade.
O coletivo é capaz de permitir a produção do comum, de forma que possamos nos apropriar da coisa pública e não da privada. Ela abre o leque para a troca de experiências, estratégias e metas de resistência e autonomia com outros envolvidos. Faz com que possamos enfrentar o mercado, sem se preocupar com a livre concorrência, com as indústrias culturais, valorizando a criação. Com o estímulo a criação de redes colaborativas o FAEGSUL criará oportunidades dos grupos formarem alianças e fortalecer as práticas artísticas.
Você também pode participar do FAEGUL. Envie um breve currículo de suas atividades, preenchendo a ficha de inscrição no blog: www.faegsulba.blogspot.com  para o e-mail: faegsulba@gmail.com 

(Publicado na Coluna "Coxia", edição de 28/05/2011, Caderno 2, Diário de Ilhéus)

sexta-feira, 20 de maio de 2011

CULTURA SÓ SE RESOLVE COLETIVAMENTE

Pawlo Cidade

“Cultura só se resolve coletivamente”. Ao ouvir esta frase do Professor e Acadêmico Ruy Póvoas - parte da fala inspiradora que ele chamou de “Reflexão”, na manhã da última quinta-feira, na sede da AMURC, em Itabuna, na abertura da reunião que elegeu a nova diretoria do FAEGSUL - Fórum de Agentes, Empreendedores e Gestores Culturais do Litoral Sul, duas coisas me chamaram a atenção.


A primeira foi à propriedade com que o Professor se debruçou sobre um conceito de cultura que venho perseguindo desde que entendo de Política Pública de Cultura; a segunda a de que a Cultura só se resolve pela educação. Sobre esta última entrarei em detalhes numa outra oportunidade. Mas, sobre a busca do coletivo para resolver o individual é uma questão que também pode partir do Estado.

O Estado deve ser capaz de engendrar um plano que permita o diálogo entre todos os segmentos artístico-culturais, a comunidade e o próprio Estado. E isso só é possível a partir do momento em que ele – o Estado - fomentar a criação de redes coletivas e colaborativas, saindo do papel viciado de produtor e passando a ser o instrumento que irá possibilitar a difusão, o acesso, a sustentabilidade da arte. O coletivo é capaz de permitir a produção do comum, de forma que possamos nos apropriar da coisa pública e não da privada. Ela abre o leque para a troca de experiências, estratégias e metas de resistência e autonomia com outros envolvidos. Faz com que possamos enfrentar o mercado, sem se preocupar com a livre concorrência, com as indústrias culturais, valorizando a criação. Com o estímulo a criação de redes colaborativas o Estado cria oportunidades dos grupos formarem alianças e fortalecer as práticas artísticas.

Por outro lado, por sermos tão múltiplos, parece-nos improvável, que possamos ser unos, apontando direções para a construção de uma identidade cultural brasileira. Contudo, o Estado pode viabilizar alternativas para não só apontar caminhos para a concepção de uma identidade cultural, mas também, o de satisfazer os anseios da comunidade. O traçado das políticas públicas de cultura quer sejam transversais ou não, necessitam ser elaboradas coletivamente.

A nova diretoria do FAEGSUL (Pawlo Cidade, presidente; Maria Conceição, vice-presidente; Alessandra Barreto, secretária e Eva Lima, suplente) tem a missão de construir uma rede cada vez mais colaborativa. Afinal, como disse o Professor, “estamos dentro de um avião em pleno vôo que precisa ser consertado. O avião não pode parar no ar. E aí? O que faremos?”

quinta-feira, 5 de maio de 2011

PARABÉNS, VERCIL!


Senhor Presidente, ilustríssimos confrades e confreiras, autoridades aqui representadas, meus senhores, minhas senhoras. Quando me foi delegada a responsabilidade de saudar este ilustre historiador, pelo também historiador e digníssimo presidente desta Academia de Letras, professor Arléo Barbosa, eu disse para mim mesmo: que benção! Uma das coisas mais fáceis que existem nesta vida é falar das pessoas que admiramos. “As pessoas viajam para admirar a altura das montanhas, as imensas ondas dos mares, o longo percurso dos rios, o vasto domínio do oceano, o movimento circular das estrelas e, no entanto, elas passam por si mesmas sem se admirarem ”. Vercil Rodrigues é uma dessas poucas pessoas que a gente passa a compreender que “amar é admirar com o coração. Admirar é amar com o cérebro ”.


O menino pobre, da pequena e pacata cidade de Gongogi, filho de dona Elza Rodrigues da Silva, aprendeu desde cedo que a leitura abre portas para o mundo e que o estudo dignifica o homem. Apesar das dificuldades, da luta incansável de sua mãe, nunca deixou de ouvir seus conselhos. Ao vê-la lendo e ouvindo atentamente seus ensinamentos, Vercil guardará para sempre na memória a imagem da mãe guerreira, que mesmo com poucos recursos, jamais deixou que seus filhos padecessem do pão.

Quando completou três anos, mudou-se para Itabuna e logo depois estudou na Escola Rômulo Galvão até a quarta série primária, depois fez o Ginásio no Colégio Estadual de Itabuna. Neste período, o pano de fundo de sua infância, adolescência e juventude foi no bairro Mangabinha. Decerto, o pequeno Vercil deve ter dado umas escapulidas com seus irmãos Ariovaldo, Vilobaldo e Josabeth para tomar banho no rio Cachoeira, pertinho do bairro, escondido de dona Elza, para não levar a lapada do cipó de goiabeira. Deve ter trepado em pé de manga, corrido de seu João Mangabinha e perdido a conta dos picolés que vendeu quando criança, dos geladinhos que deixou cair, do pão quentinho e fresco que entregou à dona Maria, a seu José, e das trouxas de roupas que entregou para as lavadeiras de ganho do Rio Cachoeira.

Talvez ele não recorde de quantas pipas empinou, de quantas disputas de peão participou, de quantos jogos de futebol assistiu e de quantas filmes viu nas matinês de domingo. Mas, certamente, Vercil recorda de todos os clássicos da literatura brasileira e universal que leu e dos populares gibis que permeavam sua cabeça com aventuras.

Vercil, com certeza, ainda lembra que foi vendedor de garrafas e de areia que se juntava nas enchentes da Rua Tertuliano Guedes de Pinho. Com esse dinheiro ajudava nas obrigações domésticas e, claro, para curtia as matinês no Cine Itabuna e assistia aos jogos do Itabuna Esporte Clube. Se apaixonou tanto pelo time que muito tempo depois se tornou Diretor Social e depois Conselheiro.

Vercil foi também do mercado informal. E, ao contrário do que diz uma certa canção, Vercil era alguém e tinha pra quem apelar: dona Elza! Como camelô, nas feiras livres do sul desta Bahia, contribuiu mais e mais no orçamento da família.


O primeiro emprego, de carteira assinada, aconteceu na Viação Nossa Senhora de Fátima, na função de cobrador. Como um bom profissional da categoria, certamente ele guarda uma história para contar. Não sei se isso lhe ocorreu, mas o fato é que um dia, como outro qualquer, uma senhora entrou com uma criança sapeca e sentou bem pertinho dele. O menino começou a pular no banco e começou a cantar: “Se meu pai fosse um coelho, minha mãe seria uma coelha e eu seria um coelhinho, ê, ê,ê...” E ele continuava gritando e cantando alto fazendo rimas com vários animais, bem perto do ouvido de Vercil. Até que, já chateado com aquele barulho falou bem perto do garoto: “Se seu pai fosse um bandido, você seria o quê?” E o menino esperto lançou uma rima: “Se meu pai fosse um bandido, minha mãe seria uma bandida e eu seria cobrador, ê, ê, ê”!...” Vercil calou a boca.

Mas, histórias e anedotas à parte, durante todo o período em que foi vendedor de pão, picolé, geladinho, camelô, cobrador etc, Vercil nunca deixou de estudar. Em 1997 terminou seu curso de história na UESC, depois, na mesma universidade fez o Curso de Especialização em História Regional e graduou-se ainda em Ciências Jurídicas pela FTC no ano passado. Especializou-se também em Metodologia do Ensino Superior, Gestão Escolar e Direito Público.

Em meio a tudo isso, casou-se com Angélica, e fez vários cursos, inclusive de Radialismo – Vercil também foi plantonista esportivo na rádio Itabunense. Encontrou fôlego para passar em dois Concursos Públicos do Estado onde exerceu a experiência de ser professor de História por mais de dez anos, vice-diretor e Diretor do Colégio Estadual Félix Mendonça – daí a necessidade de fazer especialização em Gestão Escolar. Vercil sempre levou tudo que fez com muita responsabilidade. Seu currículo e sua determinação não deixam dúvidas.

Mas não pensem os senhores, e as senhoras, que Vercil em meio a tantas atividades, num certo período da vida não pensou em “chutar o pau da barraca” e tentar a vida em terras distantes de sua cidade mãe. Pois é, em 1984, com 17 anos, seguindo o exemplo de muitos jovens, partiu para o Rio de Janeiro, mas, deu formiga na cama, e os pés disseram: Vercil, vai pra tua Terra meu filho que lá tu irá florescer. E, três anos depois, ele volta, de mala e cuia para Itabuna. Entretanto, a teimosia era tanta e como não acreditava que podia florescer na Terra que estava plantado, um ano depois vai agora para São Paulo – como todo bom nordestino, tentar a sorte na cidade grande.

Bem, não preciso contar o que aconteceu, senão, ele não estaria aqui hoje, sendo saudado por este humilde confrade, que em nome desta Academia, o recebe de braços abertos. Todavia, não pensem os senhores que minha saudação acaba aqui.

O fato é que - como disse Dr. Marcos Bandeira - Vercil é “um homem a frente de seu tempo”. Hoje, Vercil Rodrigues, este jovem simpático de pelerine é jornalista, fundador e editor do jornal Direitos – primeiro jornal jurídico do norte-nordeste e 2º do Brasil; fundador da Editora de Livros Direitos, autor da obra “Breve Análises Jurídicas” – que está em sua terceira edição. Esta veia jurídica lhe rendeu o comentário do doutor em Direito da UFBA, Ricardo Maurício Freire Soares, ao afirmar, sem ressalvas, que o professor Vercil é um “dos grandes responsáveis pelo novo e auspicioso momento de produção e difusão das letras jurídicas no Brasil e, particularmente, na Bahia, contribuindo, decisivamente, para retomada de uma salutar e crescente atmosfera de efervescência cultural no seio da comunidade jurídica”.

Pois é. Além disso é autor de dois livros inéditos: Tribunal do Júri e o Populismo em Itabuna – que serão lançados em breve; colunista dos jornais A região, A notícia, Gazeta Nordestina e colaborador dos jornais Agora e Diário do Sul.
De quebra, acaba de fundar com mais seis intelectuais da nossa vizinha cidade, a AGRAL – Academia Grapiúna de Letras, onde exerce a função de vice-presidente.

Enfim, como escrevi no parecer à sua entrada nesta confraria: “Este jovem candidato preenche, indubitavelmente, todos os pré-requisitos à investidura do rol de membros desta conceituada Academia”.

Tenho dito! Muito obrigado. Parabéns, Vercil.

(Discurso de Saudação ao novo Imortal da Academia de Letras de Ilhéus, Vercil Rodrigues, apresentado pelo Acadêmico, membro da cadeira nº 13, Pawlo Cidade, na noite de 05 de Maio de 2011)

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