domingo, 29 de maio de 2011

NOSSO PARTIDO É A CULTURA

Bloco Afro Mini-Kongo

Todas segundas quintas-feiras do mês, o Fórum de Agentes, Empreendedores e Gestores Culturais do Território Litoral Sul é convocado para uma conversa sobre os principais acontecimentos da Cultura no país e na região. Desde que foi criado, em 2008, o Fórum vem promovendo ações de qualificação de pessoal ligadas à arte e à cultura do Litoral Sul, a princípio, por meio da Universidade Estadual de Santa Cruz, como o curso de extensão em Gestão Cultural, o Seminário de Pontos de Cultura, o encontro do Proler, a escola de sanfoneiros que ocorrerá nos próximos dias.
Entre suas finalidades está a que propõe projetos comuns, integrados ou não, entre os Municípios membros, Territórios e pleitear financiamento junto ao poder público e iniciativa privada, nacionais e internacionais visando a ampliação das ações e atividades do Fórum. O FORTEATRO-SUL – Formação em Teatro e Cidadania do Território Litoral Sul é um exemplo disso e será realizado em dezessete das vinte e seis cidades que compõem o Território de Identidade. São três dias de oficinas de cenografia, iluminação, produção cultural, interpretação, música de cena, maquiagem e gestão de grupos.
Nesta nova gestão, presidida pelo Escritor e Produtor Cultural Pawlo Cidade, em parceria com Maria Conceição (gestora cultural da cidade de Una) e Alessandra Barreto (UESC) eles pretendem criar um ciclo contínuo de colóquios sobre Políticas Culturais e Ferramentas da Produção Cultural no sentido de estimular a geração de ideias, o pensar coletivo e colaborativo, o fortalecimento da economia criativa como fonte de geração de emprego e renda, a troca de informações e conhecimentos entre os integrantes, bem como firmar parcerias com órgãos públicos e privados, ONGs, voltados para interesses da arte e cultura.
A nova gestão do FAEGSUL acredita que a Política Cultural deve se ocupar da ação cultural com um sentido de continuidade, “ao longo de toda a vida e em todos os espaços sociais”, solidificando as políticas de Estado, capazes de estimular os sujeitos para que produzam a “arte e a cultura necessárias para resolver seus problemas e afirmar e renovar sua identidade”.
“Somos capazes de engendrar um plano que permita o diálogo entre todos os segmentos artístico-culturais, a comunidade e o próprio Estado. E isso só será possível a partir do momento em que pensarmos de forma coletiva e colaborativa passando a ser a ferramenta que irá possibilitar a difusão, o acesso e a sustentabilidade da arte”, afirma Cidade.
O coletivo é capaz de permitir a produção do comum, de forma que possamos nos apropriar da coisa pública e não da privada. Ela abre o leque para a troca de experiências, estratégias e metas de resistência e autonomia com outros envolvidos. Faz com que possamos enfrentar o mercado, sem se preocupar com a livre concorrência, com as indústrias culturais, valorizando a criação. Com o estímulo a criação de redes colaborativas o FAEGSUL criará oportunidades dos grupos formarem alianças e fortalecer as práticas artísticas.
Você também pode participar do FAEGUL. Envie um breve currículo de suas atividades, preenchendo a ficha de inscrição no blog: www.faegsulba.blogspot.com  para o e-mail: faegsulba@gmail.com 

(Publicado na Coluna "Coxia", edição de 28/05/2011, Caderno 2, Diário de Ilhéus)

sexta-feira, 20 de maio de 2011

CULTURA SÓ SE RESOLVE COLETIVAMENTE

Pawlo Cidade

“Cultura só se resolve coletivamente”. Ao ouvir esta frase do Professor e Acadêmico Ruy Póvoas - parte da fala inspiradora que ele chamou de “Reflexão”, na manhã da última quinta-feira, na sede da AMURC, em Itabuna, na abertura da reunião que elegeu a nova diretoria do FAEGSUL - Fórum de Agentes, Empreendedores e Gestores Culturais do Litoral Sul, duas coisas me chamaram a atenção.


A primeira foi à propriedade com que o Professor se debruçou sobre um conceito de cultura que venho perseguindo desde que entendo de Política Pública de Cultura; a segunda a de que a Cultura só se resolve pela educação. Sobre esta última entrarei em detalhes numa outra oportunidade. Mas, sobre a busca do coletivo para resolver o individual é uma questão que também pode partir do Estado.

O Estado deve ser capaz de engendrar um plano que permita o diálogo entre todos os segmentos artístico-culturais, a comunidade e o próprio Estado. E isso só é possível a partir do momento em que ele – o Estado - fomentar a criação de redes coletivas e colaborativas, saindo do papel viciado de produtor e passando a ser o instrumento que irá possibilitar a difusão, o acesso, a sustentabilidade da arte. O coletivo é capaz de permitir a produção do comum, de forma que possamos nos apropriar da coisa pública e não da privada. Ela abre o leque para a troca de experiências, estratégias e metas de resistência e autonomia com outros envolvidos. Faz com que possamos enfrentar o mercado, sem se preocupar com a livre concorrência, com as indústrias culturais, valorizando a criação. Com o estímulo a criação de redes colaborativas o Estado cria oportunidades dos grupos formarem alianças e fortalecer as práticas artísticas.

Por outro lado, por sermos tão múltiplos, parece-nos improvável, que possamos ser unos, apontando direções para a construção de uma identidade cultural brasileira. Contudo, o Estado pode viabilizar alternativas para não só apontar caminhos para a concepção de uma identidade cultural, mas também, o de satisfazer os anseios da comunidade. O traçado das políticas públicas de cultura quer sejam transversais ou não, necessitam ser elaboradas coletivamente.

A nova diretoria do FAEGSUL (Pawlo Cidade, presidente; Maria Conceição, vice-presidente; Alessandra Barreto, secretária e Eva Lima, suplente) tem a missão de construir uma rede cada vez mais colaborativa. Afinal, como disse o Professor, “estamos dentro de um avião em pleno vôo que precisa ser consertado. O avião não pode parar no ar. E aí? O que faremos?”

quinta-feira, 5 de maio de 2011

PARABÉNS, VERCIL!


Senhor Presidente, ilustríssimos confrades e confreiras, autoridades aqui representadas, meus senhores, minhas senhoras. Quando me foi delegada a responsabilidade de saudar este ilustre historiador, pelo também historiador e digníssimo presidente desta Academia de Letras, professor Arléo Barbosa, eu disse para mim mesmo: que benção! Uma das coisas mais fáceis que existem nesta vida é falar das pessoas que admiramos. “As pessoas viajam para admirar a altura das montanhas, as imensas ondas dos mares, o longo percurso dos rios, o vasto domínio do oceano, o movimento circular das estrelas e, no entanto, elas passam por si mesmas sem se admirarem ”. Vercil Rodrigues é uma dessas poucas pessoas que a gente passa a compreender que “amar é admirar com o coração. Admirar é amar com o cérebro ”.


O menino pobre, da pequena e pacata cidade de Gongogi, filho de dona Elza Rodrigues da Silva, aprendeu desde cedo que a leitura abre portas para o mundo e que o estudo dignifica o homem. Apesar das dificuldades, da luta incansável de sua mãe, nunca deixou de ouvir seus conselhos. Ao vê-la lendo e ouvindo atentamente seus ensinamentos, Vercil guardará para sempre na memória a imagem da mãe guerreira, que mesmo com poucos recursos, jamais deixou que seus filhos padecessem do pão.

Quando completou três anos, mudou-se para Itabuna e logo depois estudou na Escola Rômulo Galvão até a quarta série primária, depois fez o Ginásio no Colégio Estadual de Itabuna. Neste período, o pano de fundo de sua infância, adolescência e juventude foi no bairro Mangabinha. Decerto, o pequeno Vercil deve ter dado umas escapulidas com seus irmãos Ariovaldo, Vilobaldo e Josabeth para tomar banho no rio Cachoeira, pertinho do bairro, escondido de dona Elza, para não levar a lapada do cipó de goiabeira. Deve ter trepado em pé de manga, corrido de seu João Mangabinha e perdido a conta dos picolés que vendeu quando criança, dos geladinhos que deixou cair, do pão quentinho e fresco que entregou à dona Maria, a seu José, e das trouxas de roupas que entregou para as lavadeiras de ganho do Rio Cachoeira.

Talvez ele não recorde de quantas pipas empinou, de quantas disputas de peão participou, de quantos jogos de futebol assistiu e de quantas filmes viu nas matinês de domingo. Mas, certamente, Vercil recorda de todos os clássicos da literatura brasileira e universal que leu e dos populares gibis que permeavam sua cabeça com aventuras.

Vercil, com certeza, ainda lembra que foi vendedor de garrafas e de areia que se juntava nas enchentes da Rua Tertuliano Guedes de Pinho. Com esse dinheiro ajudava nas obrigações domésticas e, claro, para curtia as matinês no Cine Itabuna e assistia aos jogos do Itabuna Esporte Clube. Se apaixonou tanto pelo time que muito tempo depois se tornou Diretor Social e depois Conselheiro.

Vercil foi também do mercado informal. E, ao contrário do que diz uma certa canção, Vercil era alguém e tinha pra quem apelar: dona Elza! Como camelô, nas feiras livres do sul desta Bahia, contribuiu mais e mais no orçamento da família.


O primeiro emprego, de carteira assinada, aconteceu na Viação Nossa Senhora de Fátima, na função de cobrador. Como um bom profissional da categoria, certamente ele guarda uma história para contar. Não sei se isso lhe ocorreu, mas o fato é que um dia, como outro qualquer, uma senhora entrou com uma criança sapeca e sentou bem pertinho dele. O menino começou a pular no banco e começou a cantar: “Se meu pai fosse um coelho, minha mãe seria uma coelha e eu seria um coelhinho, ê, ê,ê...” E ele continuava gritando e cantando alto fazendo rimas com vários animais, bem perto do ouvido de Vercil. Até que, já chateado com aquele barulho falou bem perto do garoto: “Se seu pai fosse um bandido, você seria o quê?” E o menino esperto lançou uma rima: “Se meu pai fosse um bandido, minha mãe seria uma bandida e eu seria cobrador, ê, ê, ê”!...” Vercil calou a boca.

Mas, histórias e anedotas à parte, durante todo o período em que foi vendedor de pão, picolé, geladinho, camelô, cobrador etc, Vercil nunca deixou de estudar. Em 1997 terminou seu curso de história na UESC, depois, na mesma universidade fez o Curso de Especialização em História Regional e graduou-se ainda em Ciências Jurídicas pela FTC no ano passado. Especializou-se também em Metodologia do Ensino Superior, Gestão Escolar e Direito Público.

Em meio a tudo isso, casou-se com Angélica, e fez vários cursos, inclusive de Radialismo – Vercil também foi plantonista esportivo na rádio Itabunense. Encontrou fôlego para passar em dois Concursos Públicos do Estado onde exerceu a experiência de ser professor de História por mais de dez anos, vice-diretor e Diretor do Colégio Estadual Félix Mendonça – daí a necessidade de fazer especialização em Gestão Escolar. Vercil sempre levou tudo que fez com muita responsabilidade. Seu currículo e sua determinação não deixam dúvidas.

Mas não pensem os senhores, e as senhoras, que Vercil em meio a tantas atividades, num certo período da vida não pensou em “chutar o pau da barraca” e tentar a vida em terras distantes de sua cidade mãe. Pois é, em 1984, com 17 anos, seguindo o exemplo de muitos jovens, partiu para o Rio de Janeiro, mas, deu formiga na cama, e os pés disseram: Vercil, vai pra tua Terra meu filho que lá tu irá florescer. E, três anos depois, ele volta, de mala e cuia para Itabuna. Entretanto, a teimosia era tanta e como não acreditava que podia florescer na Terra que estava plantado, um ano depois vai agora para São Paulo – como todo bom nordestino, tentar a sorte na cidade grande.

Bem, não preciso contar o que aconteceu, senão, ele não estaria aqui hoje, sendo saudado por este humilde confrade, que em nome desta Academia, o recebe de braços abertos. Todavia, não pensem os senhores que minha saudação acaba aqui.

O fato é que - como disse Dr. Marcos Bandeira - Vercil é “um homem a frente de seu tempo”. Hoje, Vercil Rodrigues, este jovem simpático de pelerine é jornalista, fundador e editor do jornal Direitos – primeiro jornal jurídico do norte-nordeste e 2º do Brasil; fundador da Editora de Livros Direitos, autor da obra “Breve Análises Jurídicas” – que está em sua terceira edição. Esta veia jurídica lhe rendeu o comentário do doutor em Direito da UFBA, Ricardo Maurício Freire Soares, ao afirmar, sem ressalvas, que o professor Vercil é um “dos grandes responsáveis pelo novo e auspicioso momento de produção e difusão das letras jurídicas no Brasil e, particularmente, na Bahia, contribuindo, decisivamente, para retomada de uma salutar e crescente atmosfera de efervescência cultural no seio da comunidade jurídica”.

Pois é. Além disso é autor de dois livros inéditos: Tribunal do Júri e o Populismo em Itabuna – que serão lançados em breve; colunista dos jornais A região, A notícia, Gazeta Nordestina e colaborador dos jornais Agora e Diário do Sul.
De quebra, acaba de fundar com mais seis intelectuais da nossa vizinha cidade, a AGRAL – Academia Grapiúna de Letras, onde exerce a função de vice-presidente.

Enfim, como escrevi no parecer à sua entrada nesta confraria: “Este jovem candidato preenche, indubitavelmente, todos os pré-requisitos à investidura do rol de membros desta conceituada Academia”.

Tenho dito! Muito obrigado. Parabéns, Vercil.

(Discurso de Saudação ao novo Imortal da Academia de Letras de Ilhéus, Vercil Rodrigues, apresentado pelo Acadêmico, membro da cadeira nº 13, Pawlo Cidade, na noite de 05 de Maio de 2011)

sexta-feira, 25 de março de 2011

A CASA DE MARIA BONITA

Casa de Maria Bonita, em Malhada da Caiçara - Paulo Afonso/Bahia

Estivemos no Seminário Internacional do Centenário de Maria Bonita, visitando a “Casa de Santinha”, título homônimo, provisório, do mais novo espetáculo do grupo Teatro Total. O Seminário aborda aspectos, vida e curiosidades da mulher que abriu o movimento cangaceiro para a figura feminina: Maria Gomes de Oliveira, a Maria Déa, depois Maria Bonita.
A nova proposta cênica, que deve estreiar em setembro deste ano, se passa no ano de 1931. O Cangaço, liderado por Virgulino Ferreira, vulgo Lampião, impera pelo sertão nordestino. Maria, filha de Zé Felipe e Dona Déa, vive um casamento conturbado com um sapateiro dançarino e boêmio chamado Zé de Neném. Inconformada com o casamento da filha, Dona Déa promete a Virgulino sua filha Maria. Maria se apaixona pelas histórias do Rei do Sertão, contrariando a prima Mariquinha e o marido Zé de Neném. Dona Déa convence Zé Felipe a proporcionar um encontro entre Lampião e Maria.
Ao vê-la, o capitão estremece. E, de Maria Déa, Virgulino a batiza de “Maria Bonita”. A partir deste momento tem início uma das mais conhecidas histórias de amor do sertão, escrita a sangue, fogo e bala. “A Casa de Santinha” é o começo, a origem da mulher que “rompeu as barreiras impeditivas da presença feminina, em um mundo até então povoado por homens”, o Cangaço.
A Casa de Santinha, na Fazenda Malhada da Caiçara, feita de barros com taipa e fasquias de madeira, é o pano de fundo desta trama e também cenário do espetáculo que deverá ser concebido e executado por Joferson Ferreira.
Desde a abertura oficial, na quarta-feira, dia 23, na cidade baiana de Paulo Afonso, passando por Piranhas, em Alagoas e Canindé do São Francisco em Sergipe, estudiosos, amantes e escritores do cangaço de todo o Brasil debateram as mais novas descobertas sobre estes temidos justiceiros que aterrorizaram diversos estados nordestinos, bem como reafirmaram seus pontos de vista sobre a vida e a morte da Rainha do Cangaço.
Grota de Angicos, Poço Redondo/Sergipe

Estivemos em pontos marcantes da história, sobretudo o local de morte de Lampião e Maria Bonita, Angicos, após meia hora de barco pelo fantástico Rio São Francisco, do lado de Alagoas, até a cidade de Poço Redondo, em Sergipe, onde está a grota testemunha do massacre da volante. Conhecemos o local onde as cabeças cortadas foram expostas e o Raso da Catarina, palco de uma batalha entre os cangaceiros e a volante na antiga Glória, hoje Paulo Afonso. Visitamos também a casa do coiteiro Pedro Cândido (foto), responsável por fornecer os últimos víveres para Lampião e acusado de traição, após ser barbaramente torturado pela volante alagoana; fotografamos Neli, filha dos cangaceiros Moreno e Lurdinha e durante todo esse tempo, acompanhamos os amigos Manoel Severo (Cariri Cangaço), João de Souza Lima (Escritor) e Kiko Monteiro (Lampião Aceso), pesquisadores do movimento e promotores de eventos importantes sobre o tema.
“A Casa de Santinha” promete ser um drama derradeiro, que marcará e finalizará o ciclo de espetáculos cangaceiros sobre a história de Maria Bonita, antes de entrar para o movimento. 

quinta-feira, 10 de março de 2011

ARTE DE NEGOCIAR




PAI - Escolhi uma ótima moça para você casar. 
FILHO - Mas, pai, eu prefiro escolher a minha mulher.
PAI - Meu filho, ela é filha do Bill Gates...
FILHO - Bem, neste caso, eu aceito. 

            Então, o pai negociador vai encontrar o Bill Gates. 
PAI - Bill, eu tenho o marido para a sua filha!
BILL GATES - Mas a minha filha é muito jovem para casar!
PAI - Mas este jovem é vice-presidente do Banco Mundial... 
BILL GATES - Neste caso, tudo bem. 
            
Finalmente, o pai negociador vai ao Presidente do Banco Mundial. 

PAI - Sr. Presidente, eu tenho um jovem recomendado para ser vice-presidente do Banco Mundial. PRES. BANCO MUNDIAL - Mas eu já tenho muitos vice-presidentes, mais do que o necessário.
PAI - Mas, Sr., este jovem é genro do Bill Gates.
PRES. BANCO MUNDIAL - Neste caso ele pode começar amanhã mesmo! 
Moral da estória: 

Não existe negociação perdida. 
Tudo depende da estratégia. 


Se um dia disserem que seu trabalho não é o de um profissional,  lembre-se: 
a Arca de Noé foi construída por amadores; 
profissionais construíram o Titanic.
 

sexta-feira, 4 de março de 2011

Patrícia e "Mô", gourmet

Mulher Chorando, Pablo Picasso

A lua cheia brilhava no céu. O carro parou perto da praia. O vento brando trazia a maresia das ondas e o barulho da água arrebentando nos rochedos. O jovem estudante de veterinária não quis perder tempo. Abriu a porta e tirou a calça. Patrícia não saiu do veículo.
                - Que houve? Você não vem? Vamos fazer amor nas pedras! – Curvou o rosto na direção da janela com todos os dentes à mostra.
                - Não estou a fim.
                - Como assim? Você é tão espontânea. Está acontecendo alguma coisa? – Dobrou os braços sob a porta e encostou o queixo.
                - Preciso ser sincera com você. – O coração deu um salto.
                - Nós sempre fomos sinceros um com o outro. É só um lance entre nós, não é?
                - É.
                - Então? Não estou entendendo você. Não quer mais sair comigo?
                Ela ficou em silêncio. Soltou um sorriso com medo.
                - É isso? Fala! Você está me deixando nervoso. – Expressou entre dentes e com mau humor. Pat estranhou. Não sabia que ele se irritava com facilidade.
                - Tenho que confessar uma coisa. – Respirou pelo nariz, mas não soltou o ar pela boca. Não podia mais mudar de assunto. Quer dizer, se quisesse, podia. Uma situação complicada exigia saídas criativas. E Pat sabia fazer isso muito bem com “Mô”, um cara completamente previsível. Pelo menos é o que imaginava até aquela noite.
                Ele vestiu novamente a calça, abriu a porta e sentou no banco do motorista.
                - Estou ouvindo. – Mostrou irritação.
                - Nunca houve cobranças entre nós. Só que ultimamente você tem sido mais carinhoso que o normal. E eu não me sinto bem agindo assim. – Ela não estava mentindo.
                - Que parar de enrolar, droga! Fala logo de uma vez! – Gritou. Patrícia afastou-se receiosa – Desculpe! – Lamentou.
                Ela fitou o rosto dele. Inspirou novamente, criou coragem e prosseguiu:
                - Outro dia você me perguntou por que eu sempre te chamo de “Mô” e não pelo nome.
                - Eu lembro. E daí?
                - E daí que “Mô” para mim, não significa “amor”.
                - Não? – Espantou-se. – E significa o quê?
                - Motorista. – Revelou em voz alta, balançando a cabeça.
                “Mô” explodiu em gargalhadas durante uns quarenta segundos. Patrícia riu também.
Sem que ela pudesse esperar, ele parou de sorrir como um “stop” de DVD player, vociferou um palavrão e deu uma cotovelada no rosto dela. O impacto partiu na hora o supercílio. Em seguida, ainda agredindo-a verbalmente, empurrou-a violentamente para fora do carro. Deu partida e por pouco não a atropelou.
Sangrando e chorando muito, ela retirou o celular do bolso de trás da calça e bastante trêmula discou 1-9-0.
- Polícia Militar, boa noite. – Respondeu a voz feminina do outro lado.
- Alô... eu... queria falar com... o tenente... Paulo! – Balbuciou.
- Quem gostaria?
- A filha dele.   
(Trecho do romance "NABOA", ainda no prelo de minha autoria.)

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

A IMORTALIDADE NA RUA DOS TIJOLOS INGLESES


Senhor Presidente, confrades, confreiras, autoridades, meus amigos, minhas amigas, meus irmãos, minha família. Saúdo a todos dizendo que o orgulho é a lâmina que fere, mas a humildade é a libertação da alma. É afirmando este pensamento, alicerçado em pilares como honra, respeito, dignidade, honestidade e muito, muito amor, herdados do meu pai Getúlio Soares, o “GG” para os íntimos, e Maria Eutália, minha mãe, tão carinhosamente chamada por muitos de “Tatai”, “Marita”, “Tia Marita” que dou início aos meus agradecimentos.
Meu pai nos deixou há dez anos e minha mãe há três. Se estivessem vivos, estariam sentados aí, do lado de vocês, sorrindo, felizes, regozijados e convictos de que cumpriram os seus papéis. Foi por eles e com eles que eu trilhei o caminho que me trouxe aqui, hoje, nesta noite, para fazer parte desta mesa de ilibadas personalidades que dignificam e dignificaram o brio desta Academia.
Deus, em Sua infinita bondade me concedeu a honra de ter como patrono da cadeira que hoje ocupo, o inigualável Antonio Frederico de Castro Alves. O filho de Dona Clélia Brasília da Silva Castro e do Dr. Antonio José Alves que nasceu no dia de fundação desta Academia, 14 de março, que por justa homenagem é também chamado de Dia da Poesia. Coincidentemente, ao se apaixonar pela atriz Eugênia Câmara, Castro Alves entusiasma-se pela vida teatral e escreve o drama “Gonzaga”. Nesta mesma época ele consagra-se o poeta que se tornou.
(...)
O fundador desta cadeira, meus amigos, é nada mais, nada menos que o homem que levou Ilhéus para os quatro cantos deste planeta. Ele fez com que os visitantes que aqui se hospedam acreditar na existência de personagens como Nacib, Gabriela, Tonico Bastos etc; o homem que fez os quitutes de Dona Flor ganharem o mundo; os gritos de Pedro Bala serem ouvidos; as loucuras de Tiêta serem contestadas; os santos ganharem vida e um gato se apaixonar por uma andorinha. Eu falo do homem que escolheu Ilhéus como seu lar, que viu seu pai ser ferido numa tocaia dentro de sua fazenda, fugiu do colégio interno, fundou jornais, virou comunista, advogado, deputado e acima de tudo escritor. O escritor, filho de Seu João Amado de Faria e de Dona Eulália Leal. O escritor Jorge Amado.
(...)
A antecessora desta cadeira, foi esposa de Jorge por 56 longos anos. Cúmplice, analista, memorialista, fotógrafa. Ela, uma leitora entusiasta de Jorge Amado que se apaixonou por ele trabalhando junto no movimento pela anistia dos presos políticos. Era ela quem passava a limpo, à máquina, os originais de Jorge e auxiliava-o no processo de revisão. Escreveu seu primeiro romance aos 63 anos de idade. Seu livro de estreia “Anarquistas, graças a Deus” vendeu mais de 200 mil exemplares. Ela escreveu nove livros de memórias, três livros infantis, uma fotobiografia e um romance chamado “Crônica de uma namorada”. Sim, a antecessora desta cadeira foi Zélia Gattai Amado.
(...)
O fato, meus amigos, é que eu já sentei no chão do banheiro, enquanto via minhas lágrimas se misturarem com a água que escorria pelo chuveiro. Já corri tanto até não agüentar mais. Subi no telhado da vizinha querendo ver a filha dela tomar banho. Já ouvi tantos “nãos” da minha mãe que me tranquei no quarto sem querer falar mais com ninguém. Briguei com o meu pai porque ele não queria que eu fosse a uma festa. Mandei meu avô ir cantar coco só porque ele não me deu dinheiro para comprar um sorvete.
(...) Já plantei uma árvore, já colhi cacau, mandioca, milho. Tive um filho, perdi outro. Já amei muitas vezes, e sofri muitas vezes também. Até que um dia eu aprendi que não adiantava correr atrás das borboletas. Era preciso cuidar primeiro do meu jardim.
Já fui ajudante de pedreiro, auxiliar administrativo, mecanógrafo, estagiário, membro do centro cívico, menino de recados, namorador, desenhista, letrista, pintor, balconista, chefe de seção, coordenador pedagógico, professor.
(...) Minha Tia Avó acredita que eu herdei o dom da escrita do meu bisavô Manoel Pedro das Dores Bombinho... É dele um dos mais raros poemas da literatura brasileira com 5.984 versos sobre o mesmo tema. Bombinho, como era chamado, escreveu “Canudos, história em versos” em 1897 e 1898.
Não sei se serei um dia um Jorge Amado ou uma Zélia Gattai. “Tenho pensamentos que, se pudesse revelá-los e fazê-los viver, acrescentariam nova luminosidade às estrelas, nova beleza ao mundo e maior amor ao coração dos homens” (Fernando Pessoa). O tempo, as coisas, a vida me ensinou que melhor que ter dinheiro é ter amigos. E que “a gratidão é o único tesouro dos humildes” (Shakespeare).
O fato é que “há homens que desistem de lutar. Estes são dispensáveis. Há homens que nunca desistem de lutar. Estes são imprescindíveis. Por isso eles são imortais”.
O certo mesmo é que combati o bom combate, batalhei por minha carreira e guardei minha fé.
Obrigado, meu Deus. Obrigado, meus amigos, obrigado a todos vocês!

(1) Resumo do discurso de posse na Academia de Letras de Ilhéus, dia 26 de agosto de 2010. Pawlo Cidade ocupa hoje a cadeira número 13.
(2) A rua Antônio Lavigne de Lemos, onde está localizada a Academia de Letras, é também chamada de Rua dos Tijolos Ingleses. Foi a primeira rua a ser pavimentada na cidade de Ilhéus, com paralelepípedos vindos da Inglaterra, que serviam de lastro de um navio que aqui veio buscar mercadorias.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO PALCO


No Teatro tudo é permitido e, ao mesmo tempo, proibido. Todas as regras pre-estabelecidas de repente passam a não valer nada. O Teatro é paradoxal, contraditório e, acaba em alguns momentos se transformando numa arma. Muitos se arriscam em sua experiência, poucos compreendem a matriz dionisíaca que se apodera dos corpos frágeis e poéticos.
O Teatro é um processo. Só quem vive compreende as dificuldades e as alegrias. Plateia cheia, bilheteria gorda, nem sempre representa satisfação. Há uma grande diferença entre quantidade e qualidade. De cada cem pessoas, sete assimilam a mensagem. Sete são responsáveis por amar aquilo que fazemos. “Sete serão apenas aquelas que lerão o que escrevemos”, disse José Delmo.
Por falar em José Delmo, eu o vejo como o poeta da carne crua, da mão nua, do coração de papel. O mestre da arte cênica que apontou os caminhos e que descobriu seu próprio destino. O ator é um homem só. O escritor é um homem só. O diretor é um homem só.
A solidão procura no artista a descoberta. O artista encontra na solidão a transmigração de seus pensamentos.
No Teatro, a dor finge que sente. Assim como o poeta que mente. Mente porque é capaz de dizer a verdade. Diz a verdade porque é capaz de mentir. Somos todos mentirosos dizendo verdades.
No Teatro existe cura. A cura acontece quando você se encontra. E se encontrando, encontra o outro. Assim, percebe que a arte é feita de encontros. Entre pedaços de papel, cenas improvisadas, gestos inúteis, marcações despropositadas, surge o personagem. É necessário uma desconstrução para então, e somente então, construírmos. A construção é um processo de evolução. “A arte e os artistas devem evoluir, pois, caso contrário, só lhes restará regredir”. Como artistas devemos estar revendo nossas ideias até o último suspiro. Nietzsche assim não o fez ao afirmar em seu leito de morte que se existisse um Deus ele seria o mais miserável dos pecadores?
No Palco, um papel, “mais do que a ação na vida real, deve ser uma fusão das duas vidas – a da ação exterior e a da ação interior – num esforço mútuo que visa a alcançar um determinado objetivo”
Para que existe o Teatro? Para a plateia? Para o texto? Para a técnica? O Teatro existe para o ator, sem o qual não pode absolutamente existir. Afinal, o que é leve? O que é insustentável no processo de criação? Como diria Stanislavski: “Temam os seus admiradores! Aprendam, no devido tempo, a entender e a amar a verdade cruel a respeito de si próprios... Falem a respeito de sua arte somente com aqueles que podem lhes dizer a verdade”.
Quem já sentiu uma corrente fluir dos seus olhos ou da ponta de seus dedos em direção ao seu companheiro de cena? As pontas dos dedos são os olhos do nosso corpo. O diretor é um psicólogo e um artista e até certo ponto ele também precisa ser um ator. “Um ator vive, chora e ri em cena, e está o tempo todo atento as suas próprias lágrimas e sorrisos. É esta dupla função, este equilíbrio entre a vida e a atuação que constituem a sua arte”, disse Salvini.
O Teatro tem um palco. Um palco insustentável e leve.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

IMORTAL

Abel Pereira, um dos fundadores da ALI


Pois é. Acabei sendo eleito para a Academia de Letras de Ilhéus. Irei ocupar a cadeira número 13. A mesma que pertenceu ao escritor Jorge Amado e depois a escritora Zélia Gattai. Agora sou - como são chamados os eleitos para a Academia de Letras: IMORTAL.

Pode ter certeza que todas essas bençãos (prêmios, eleição, lançamento de livros) é fruto de um trabalho que já beira quase três décadas. Aprendi nas tribulações, nas vitórias, nas lutas. Sobretudo, nas tribulações, pois, como diz o apóstolo Paulo na carta aos Romanos: "...a tribulação produz a paciência; e a paciência, a experiência; e a experiência, a esperança. E a esperança não traz confusão, porquanto o amor de Deus está derramado em nosso coração pelo Espírito Santo que nos foi dado..."

Sei que ainda há muita coisa a conquistar. Sei também que tudo isso é apenas o começo. Foi por tudo isso que nunca perdi a esperança.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

O EMPRESÁRIO QUE GUARDAVA LIVROS


I


Eu já sentei no chão do banheiro, enquanto via minhas lágrimas se misturarem com a água que escorria pelo chuveiro. Já corri tanto até não agüentar mais. Subi no telhado da vizinha querendo ver a filha dela tomar banho. Já ouvi tantos “nãos” da minha mãe que me tranquei no quarto sem querer falar mais com ninguém. Briguei com o meu pai porque ele não queria que eu fosse a uma festa. Mandei meu avô ir cantar coco só porque ele não me deu dinheiro para comprar um sorvete. Colecionei gibis de super-heróis, selos, botões, tampinhas de refrigerante, sobretudo àquelas que traziam os personagens da Disney e quase que ela ficou completa se tivesse encontrado o Pato Donald.


Um dia, na primeira série, quando voltava para casa, foi acometido por uma diarréia. Não consegui segurar. A escola não ficava muito longe de casa, mas não deu tempo. Andei quase trocando as pernas, enquanto sentia o melado escorrer pelas coxas. Fui chacota de meus irmãos quando cheguei em casa pingando coco. Minha mãe me jogou embaixo do chuveiro e me lavou. Foi um vexame. Sempre tive estes intempestivos intestinais. Acho que meu intestino era frouxo, não agüentava muita comida.

Eu era um aluno esforçado. Estudava em escola pública. Tirava notas sempre na média. Nunca fiz nada de extraordinário até a quarta série primária. Digo até a quarta série porque foi nela, de verdade, que eu compreendi como podia ser alguém na vida. Entretanto, antes de ser o que eu sou, eu conheci a dor, o amor, a decepção, o desespero, a traição, a falsidade. Atributos que a vida nos apresenta e, se você não passa por elas, dificilmente irá compreender o sentido de tudo que lhe cerca.

Aos dez anos meu pai me deu um livro. Numa época em que eu pensava em ser o Super-Homem ou subir pelas paredes feito o Homem Aranha, meu pai, no meu aniversário, me dá um livro de presente. Sorri, peguei o livro e, furioso – não na frente dele – corri para o quarto peguei o bendito e joguei embaixo da cama.

Eu não gostava de ler. Quando lia, a professora quase não ouvia nada. Eu lia tão baixo, que parecia estar sussurrando. Foi numa daquelas leituras coletivas na sala de aula, que lendo baixo, a professora me deu algumas guarda-chuvadas na cabeça exigindo que eu lesse direito. Fiquei com raiva. Não queria mais ler.

Meu pai, então, acreditando estar fazendo a coisa mais legal do mundo, me dá um livro de presente ao invés do Ferrorama que eu via passar na propaganda da TV todos os dias. Eu sonhava com aquela ferrovia de brinquedo, com uma locomotiva a vapor, vários vagões juntos, como o vagão de carvão, de carga, de combustível, de passageiros.

Aquele livro ficou embaixo da minha cama uns três meses. Um dia, quando voltei da escola e joguei a mochila sobre a cama, lá estava ele, sujo pela poeira, mas inteirinho, em cima da cama. Antes de tomar café, minha mãe dissera que havia encontrado ao arrumar o quarto e me disse que meu pai tinha perguntado se eu havia lido. Aquilo me preocupou. Afinal, era um presente e se ele perguntasse sobre a história, sobre se eu tinha gostado ou sobre algum daqueles personagens? Voltei para o quarto pensativo, esperando que a qualquer momento fosse surpreendido pelo papai questionando sobre o livro. Foi aí que ao me deparar com aquele menino em cima de um planeta com uma flor como companhia que eu resolvi ler.


II



Ele me ensinou que o essencial era invisível aos olhos e que eu me tornaria responsável, para sempre, por tudo que um dia em viesse a cativar. Ensinou-me ainda que mais que ter dinheiro ou qualquer outra coisa, bom é ter amigos. Me fez ficar pensando se um carneiro, em algum lugar do universo, tinha ou não comido a rosa, toda vez que eu olhava para as estrelas. Fiquei com vontade de viajar pelo deserto, na África, e ficar debaixo daquela estrela esperando o menino dos cabelos de ouro, encontrá-lo e escrever para o autor dizendo que o Pequeno Príncipe tinha voltado. E eu descobri tudo isso apenas em um único livro.


III



Depois de ler o Pequeno Príncipe, eu saí do quarto correndo para contar ao meu pai tudo que eu havia descoberto. E assim, ao invés de ser surpreendido por ele, eu o surpreenderia contando-lhe aquela história fantástica do menino viajante e indagador. Quando virei o corredor, encontrei minha mãe chorando, na sala, sobre o sofá, sendo consolada pela minha irmã mais velha. Meu outro irmão estava encostado no sofá, com os olhos vermelhos, abraçado pela minha tia. Minha mãe ergueu a cabeça e abriu os braços me chamando. Quando ela me abraçou, eu vi a sala girar. E então, mamãe disse em voz baixa:

“Seu pai foi para um planeta distante”.

Eu não quis saber qual foi o planeta. Só pedi a Deus que o menino dos cabelos de ouro guiasse meu pai pelo universo sem fim. Foi a primeira vez que eu corri sem vontade de parar.



IV


Eu repeti a quarta série por dois motivos: meu pai tinha morrido e não queria mais receber guarda-chuva na cabeça só porque lia baixo. Minha mãe me tirou da escola pela segunda razão e por pouco não deu umas guarda-chuvadas na cabeça de dona Magnólia também, minha professora da quarta série.

Mudamos de bairro e eu mudei de escola. Minha nova professora toda vez que dava uma aula, parecia contar uma história. A escola ficava na periferia, perto da favela que a gente morava. Mas, era organizada. A diretora comemorava os aniversariantes do mês e ainda distribuía bombons e sorvetes para toda a turma.

A professora organizou uma gincana bacana com a turma. O aluno que conseguisse ler mais de três livros numa semana ganharia um fim-de-semana no Iate Clube do município, tudo por conta dela. Eu, que detestava livros, lá estava viajando naquelas histórias de Júlio Verne e Monteiro Lobato. Li Vinte Mil Léguas Submarinas, Reinações de Narizinho, e Emília no País da Gramática e de quebra reli O Pequeno Príncipe. Mas, não bastava dizer que leu os livros, era preciso ir até a frente da turma e contar tudo que tinha lido.

A vontade era tanta de tomar banho de piscina, comer num restaurante chique e brincar no parquinho do Iate Clube que eu não contei conversa. Corri para a frente da sala e comecei a falar. A princípio, estava quase sussurrando, mas depois que a professora disse para contar como se estivesse na história, a boca abriu e eu não quis parar mais. Falei quase a aula inteirinha, até a hora de tocar o sino para o recreio.

Depois daquele dia todos quiseram conhecer as aventuras escritas por Monteiro Lobato e Júlio Verne. Lembro-me ainda de ter visto lágrimas nos olhos da professora quando eu contei a história do Pequeno Príncipe e de como eu imaginava ver meu pai com ele navegando pelas estrelas.

Fiquei conhecido naquela escola como “o menino que contava histórias”. No fim do ano, ganhei um montão de livros bacanas. Cada livro que eu lia, sempre ficava alguma coisa. Fui vencendo as dificuldades que foram se apresentando na minha casa, na escola, na rua, lendo os livros. Certa vez, escapei de uma briga por causa de uma história que eu li. Alguns meninos me achavam chato, porque tirava notas boas e ficava sempre no grupo das meninas bonitas. Eles então me esperaram na saída da escola e planejaram me surrar, para que eu soubesse quem dava as ordens naquele lugar.

- Escuta aqui, pivete. Você se acha o tal, não é? Pensa que pode tudo com as meninas só porque ler um pouco mais que nós? – Disse o grandalhão que usava uma corrente de prata que parecia mais pesada que o pescoço dele.

- Você acaba de estabelecer um conflito, meu amigo. Não há nada que prove que eu me acho, nem tampouco que queira ser melhor que vocês. Eu estudo mais, porque quero ser alguém na vida. Sei mais, não porque sou mais esperto, mas porque leio mais. Se você ler mais, certamente você também saberá mais. Que vantagem você terá em me surrar pra mostrar quem você é, se todos já sabem? Quer se mostrar para alguém, diga a ela o que você sente, não como você faz.
O grandalhão ficou me olhando tentando entender.

- Você tá me zoando, cara? – Ele bradou.
- Não, estou querendo apenas ser seu amigo. – E estendi a mão.

Por pouco o outro estendeu a mão também. Mas, ele achou que a força era mais importante que o diálogo. Resultado: eu terminei o ginásio, ele abandonou a escola.


V



Meu quarto era também minha biblioteca. Nossa casa era pequena, não havia muito espaço. Então, construi umas prateleiras e fui guardando os livros que ganhava e que consegui comprar quando comecei a estagiar no Ensino Médio. À noite, quando dobrava o travesseiro e pegava um livro novo para ler, eu olhava para as prateleiras repletas de livros e pensava comigo:
E depois? Faço o que com todos vocês?

Eu estava diante dos autores, das histórias, dos contos que me ajudaram a chegar onde cheguei. Não podia ficar com eles só pra mim. Eu precisava sair dali e contar para todo mundo que meus melhores amigos me ensinaram a vencer.

Assim, quando terminei o Ensino Médio montei uma biblioteca comunitária no bairro, que funcionou na sala de casa. Depois, passei no vestibular, fechei a biblioteca, porque precisava pagar os estudos. Mas, a ideia de compartilhar aqueles ensinamentos não me saía da cabeça. Resolvi fazer Administração. E foi o que eu fiz.

(CONTINUA...)

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