quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

RESENHA SOBRE RIO DAS ALMAS

 


REALISMO MÁGICO BRASILEIRO NO SÉCULO XXI: 

RIO DAS ALMAS, DE PAWLO CIDADE

Ivo Korytowski*

 

Por que esse oximoro “realismo mágico” ou “realismo fantástico”? O que é real não é mágico/fantástico, e vice-versa. Por que não simplesmente “fantasia” ou “literatura fantástica”? Porque, ao contrário das obras quintessencialmente fantásticas, o romance não tem por cenário um ambiente irreal: uma Nárnia, uma Terra de Oz, uma Liliput. As histórias do realismo mágico costumam transcorrer em cidades interioranas típicas de algum país latino-americano, cidades que por suas características, pelo perfil de sua população, poderiam perfeitamente existir. Só que, em meio à rotina cotidiana de pessoas aparentemente normais – não são seres mitológicos, chifrudos, alados, com um olho na testa, é gente como a gente – eventos fantásticos começam a acontecer do nada, como se normais fossem. Esta é a lógica do realismo fantástico, que o distingue do puro romance de fantasia ou do puro romance realista (ou naturalista). Ou, segundo a Enciclopédia de Literatura Merriam Webster, “fenômeno literário latino-americano caracterizado pela incorporação de elementos fantásticos ou míticos, como se fossem reais, a uma ficção que normalmente seria realista. O termo foi aplicado à literatura no final da década de 1940 pelo romancista cubano Alejo Carpentier, que reconheceu a tendência dos contadores de histórias tradicionais de sua região, bem como de escritores contemporâneos, de iluminar o mundano por meio do fabuloso.” (verbete magic realism; tradução minha) 

Na segunda metade do século XX, a América Latina de língua espanhola foi pródiga em autores do realismo fantástico ou mágico, alguns com projeção internacional: Julio Cortázar, Gabriel Garcia Márquez, Isabel Allende, etc. Já no Brasil, onde o modernismo dominou o ambiente literário por mais de meio século, o realismo mágico se manifestou mais na teledramaturgia, em novelas de televisão de enorme sucesso como SaramandaiaRoque SanteiroO Bem Amado. Mas eis que, em plena segunda década do “século seguinte”, o pedagogo e dramaturgo natural de Ilhéus, Bahia, Pawlo Cidade surpreende-nos com esta obra de realismo mágico/fantástico Rio das Almas.

Bem escrito, imaginação a pleno vapor, poder descritivo, vocabulário rico. O autor se diz influenciado por (entre outros) Jorge Amado e Gabriel Garcia Márquez. A história começa em 9 de fevereiro de 1968, plenos anos sessenta, quando o realismo mágico latino-americano galgava listas de best-sellers mundo afora.

A trama gira em torno do “funcionário do governo” Pedro Perigot, “um dos maiores hidrólogos do país”, que, a mando do governo, viaja em sua camioneta até Rio das Almas, o povoado que não estava no mapa, palco no passado de um massacre de índios juma – passando no caminho pelo Vale dos Absurdos, onde uma vez por ano o sol brilha em plena meia-noite – a fim de pesquisar o poder medicinal de suas águas. A própria mãe de Pedro havia sido miraculosamente curada de uma doença terminal por uma garrafa do líquido (“A Magnólia Parigot [...] destruída pela doença dava lugar a uma mulher jovem, bonita”), levando o filho a se dedicar ao estudo medicinal da água de Rio das Almas. “Se dizia em Betânia e em todas as cidades circunvizinhas que a água era a principal responsável pela longevidade dos seus habitantes. Apesar dos rios atravessarem toda a região, apenas Rio das Almas não registrava mortes nos últimos dezenove anos. Dizia a lenda que beber na nascente do rio das Almas prolongaria a vida [...]”.

Assim que chega lá, Pedro presencia uma cena de dimensões bíblicas: a ressurreição do velho Deocleciano. Antigo funcionário público que administrava a estação de tratamento de águas, leitor dos grandes filósofos da humanidade, após várias tentativas de suicídio a fim de desafiar Deus, enfim conseguira seu intento à vista de todos, quando tentava provar que não conseguiria. Mas no momento da chegada de Pedro, para o espanto de todos, Deocleciano ergue-se do caixão. Até o Repórter Esso relatou o prodígio: um homem voltara dos mortos num povoado perdido no mapa. A morte abandonara Rio das Almas. A morte foi aniquilada de Rio das Almas.

O autor brinca com a fantasia da abolição da morte com que já brincara antes Orígenes Lessa, em A desintegração da morte, e José Saramago em As intermitências da morte. O inusitado é a regra aqui. Já no capítulo de abertura deparamos com o primo Duas Caras, metade do rosto queimado de sol, metade não; o andarilho Miguel que por mais calor que faça nunca bebe água, e sempre alcança a camioneta, por mais que esta se adiante; Dona Santaninha, cujo marido tenta esticá-la para ficar tão alta quanto ele; a família de olhos violetas, etc.

O autor faz desfilar pelo romance uma galeria de personagens incomuns. O torneiro Jafé que trai a esposa com a própria sogra e que também acaba ressuscitando. Francisco Lino, o Chico Rola, que após duas décadas de impotência vê-se acometido de um priapismo persistente e doloroso. Maria Marta Encarnação, cujo marido prometeu que “Se você não for ao mar, o mar virá até você!”. Andrezinho, o menino com trejeitos de afeminado que, atormentado pelo pai, aparentemente foge de casa. Zé Romão e Cícero Paulada, “os mais hábeis magarefes de Rio das Almas”. Os burros Cosme e Damião, sobreviventes do desmoronamento da mina, cuja morte desencadeia a discussão de se possuíam alma como os humanos...

Na segunda parte a narrativa, compassada de início, adota um ritmo frenético e paroxístico, onde o elemento realista explode em crimes e pecados abomináveis, e o elemento mágico, em prodígios inauditos.

Era uma vez, um povoado chamado Rio das Almas.


* Ivo Korytowski é escritor, tradutor consagrado (tendo traduzido 195 livros), lexicógrafo, filósofo pela UFRJ, pesquisador da história do Rio, blogueiro e Youtuber. Nasceu no Rio de Janeiro em 1951 e desde 2019 mora em São Paulo.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

DEGUSTAÇÃO LITERÁRIA

Parábola do Juiz iníquo – Site Espírita


O JUIZ INÍQUO

Pawlo Cidade

Dona Imani de Jesus procurou doutor Joaquim Ribeiro, o juiz de paz da província, o homem mais arbitrário de Vila Bela. O homem tinha influência entre a maioria dos cidadãos do lugar; era o mais temido pelo corpo policial e capaz de interferir no processo político do estado. Contava com uma relação extensa entre os antigos senhores de engenho, influenciava os cargos políticos da Câmara de Vereadores e a grande maioria das escravarias, embora estas tivessem sido abolidas quatorze anos antes. 

Doutor Joaquim Ribeiro orgulhava-se de pertencer à “aristocracia da terra”. Um ateu convicto que detinha a fama de justiceiro contra os menos afortunados. Eleito por fazendeiros e latifundiários para atender aos interesses individuais e às famílias destes, dizia que legislava pela e para a fidalguia. Ai de quem o desafiasse maculando seus princípios, deturpando seus ideais. Bacharel de formação, concluiu os estudos pela Faculdade de Direito de São Paulo, mas continuava tocando os negócios do pai na fazenda de café. Sonhava ser Ministro do Supremo Tribunal Federal naqueles anos iniciais da República. Com a tinta rigorosa com a qual decidia suas sentenças, logo-logo sua fama se espalharia pelos quatro cantos do país e seu desejo não tardaria a se realizar. Corria entre os magistrados de paz na capital federal, onde o recém-criado Tribunal do Júri da Comarca de Vila Bela tornara-se modelo de justiça no país. 

Dona Imani de Jesus não deu ouvidos ao que disseram do doutor Joaquim Ribeiro. Nem sequer lhe passou pela cabeça que ele podia encarcerá-la, unicamente pelo fato de lhe dirigir a palavra. Não deixaram que ela entrasse no Tribunal, nem concederam nenhuma audiência com o dito juiz. Ela não recuou. Nem tampouco se deixou vencer pelas barreiras que lhe impuseram. Descobriu o endereço do juiz com a ajuda de alguns poucos amigos. Caminhou três léguas até sua residência e aguardou, pacientemente, a saída do doutor Joaquim Ribeiro de casa para o trabalho. Quando ele pôs os pés na calçada, se aproximou por trás dizendo: 

- Doutor, faz justiça com meu marido, pelo amor de Deus! 

O juiz continuou andando, sem dar nenhuma atenção ao apelo. Não olhou para a retaguarda, apenas a ignorou. 

No dia seguinte, bem cedo, lá estava ela novamente. Ao vê-lo sair, correu ao seu encontro e repetiu a solicitação. O juiz pensou que se tratasse de uma louca e a ameaçou. Depois, acelerou os passos e não respondeu nada outra vez. 

Quatro dias depois, já prevendo o aparecimento da mulher, o magistrado adiantou as passadas, enquanto ela, amiúde, implorava pela inocência do marido, desejosa de ver sua causa julgada honestamente. O juiz de paz estacou. Era uma figura pesada e sem elegância, de cara amarrada, que relanceava de quando em quando para dona Imani, por baixo daquelas sobrancelhas volumosas. Ele aspirou ruidosamente pelo nariz, como se quisesse adverti-la. A mulher estava a quatro passos atrás, desolada. Não disse nada e foi embora.

No décimo quinto dia, ao vê-la no portão, chamou os empregados e ordenou que a levassem dali. Seus gritos clamavam por misericórdia e atenção. Tudo que ela queria era apenas um minuto para que ele pudesse resolver seu problema. Na cidade, todos já sabiam da mulher do prisioneiro que fora preso sem julgamento e os cidadãos vilabelenses, mais condoídos, já começavam a falar de sua frieza e absoluta falta de compaixão. Foi, pouco a pouco, perdendo a popularidade. Já não gozava de tanto prestígio na sociedade. Poucos o cumprimentavam na rua. Os cochichos se estendiam e, cedo ou tarde, chegariam na capital. Incomodado com o falatório, inclusive de opositores na Câmara Municipal, e preocupado com a próxima eleição, o juiz iníquo, pensando em si mesmo e querendo se livrar daquela mulher, resolveu atendê-la. Ouviu o pedido de dona Imani, ali mesmo, no meio da rua e prometeu julgar a causa de Virgílio de Jesus. 

O processo foi posto, Virgílio de Jesus foi a julgamento. Mas o juiz o considerou culpado pelo sumiço das joias da família do mercador. Doutor Joaquim Ribeiro condenou o pobre homem a nove anos e nove meses de prisão. No julgamento, a acusação apresentou provas de que Virgílio de Jesus sabia do desaparecimento da mercadoria e, indiretamente, também seria o responsável pela morte de Malquias Amzalag. Afinal, quando o joalheiro chegou ao seu estabelecimento e viu que havia sido roubado, se apavorou e atravessou a Avenida Central entontecido, vindo a ser atropelado e morto.

No período em que passou na prisão, desenvolveu habilidades de um artífice. O talento se revelou no dia em que observou um menino brincando com o barro, no pátio de banho de sol dos detentos, num dia nublado de domingo, o dia oficial das visitas. A criança havia viajado com o pai de muito longe, de uma região chamada Ribeira dos Campos, perto da cidade de Caruaru, para visitar e conhecer o tio preso. Virgílio se aproximou da família e fez amizade com o pai da criança e com o tio. Ficou encantado com a peça que o menino criava, manipulando o barro com jeito. 

- Bonito, seu bonequinho... disse, tentando puxar conversa com o garoto.

- Não é um bonequinho, é um boi. Rebateu o menino, enquanto lapidava os chifres do animal com a água da poça da chuva. 

O pai, orgulhoso, entrou na conversa:

- Esse menino sabe é coisa. Outro dia ele fez um cavalo marinho igualzinho aos do mar. Esboçou um largo sorriso. Quando crescer vai ajudar a mãe a fazer panelas para vender na feira. E antes mesmo que Virgílio fizesse qualquer outra pergunta acrescentou:

- O nome dele é Vitalino! Vitalino Pereira dos Santos. E a criança continuou trabalhando no boizinho.

Um tempo depois, resolveu mexer no barro, durante o período em que ele e os companheiros tomavam banho de sol. Com dificuldade, fez um cavalo, depois um defunto na rede sendo carregado pelos amigos. Pouco a pouco foi se aperfeiçoando. Em menos de um ano, os detentos o apelidaram de “homem do barro”. Dois anos depois, alguns carcereiros traziam argila de suas casas para que Virgílio fizesse presépios e cenas do cotidiano, como homens montados a cavalo, animais ferozes, peixes e insetos. O trabalho foi ficando tão bom que os companheiros de cela cotizavam para comprar tinta para colorir as pequenas esculturas. Em contrapartida, Virgílio lhes retribuía com suas criações. No terceiro ano, já dominando por inteiro o novo ofício, o subdelegado o batizou de “Mestre Virgílio”, pois, para fazer as obras que ele fazia, só mesmo um mestre de nascença. 

Quando saiu da prisão, mudou com a família para o interior. Na bagagem, apenas um colchão de capim, algumas panelas de barro, lençóis e uma botija, presente de casamento de seu avô. Durante cinquenta anos, Virgílio de Jesus achou que havia perdido o mapa. Por diversas vezes tentou convencer a esposa do tesouro escondido. Ela o proibiu de falar naquele assunto enquanto viva estivesse lembrando-lhe sempre do tormento que ambos passaram. Entretanto, sem o mapa quem acreditaria nele? Sem o mapa o tesouro continuaria sendo uma lenda urbana, uma desculpa esfarrapada de um alforriado que, segundo o júri, roubou uma joalheria e matou o dono.

Agora estava só. Os filhos se casaram e voltaram para a capital. Dona Imani morrera de tuberculose sobre o sovado colchão de capim. Por orientação do pessoal da saúde, todos os objetos que tivessem tido contato com a doente deveriam ser destruídos, se possível queimados. Carregou o colchão com dificuldade até o quintal. Pegou uma faca grande para rasgar o colchão e retirar parte do capim afim de facilitar a queima. De súbito, ao cortar o coxim basteado, caiu um pequeno envelope, amarelado pelo tempo, do interior do colchão. Dentro do envelope, dobrado cuidadosamente em quatro partes, lá estava ele, o maldito mapa do tesouro de Malquias Amzalag, o mercador.




(Trecho do livro, O povoado das onze mil virgens, 2019, publicado pela Editora Teatro Popular de Ilhéus. "O juiz iníquo"foi inspirado numa parábola de Lucas 18:1-18).

domingo, 7 de novembro de 2021

AS DOCES AMARGAS MEMÓRIAS DE PEDRO E ALICE

 


Relacionamentos que começam com experiências públicas nunca dão certo. O meu tinha tudo para dar errado. Eu era seu professor, apesar de ela ser uma garota madura para sua idade: “Inteligente, sarcástica e rebelde”. Eu confesso que nunca fui tão feliz. E como sofri tanto!

Fechei o notebook depois de dizer, pela primeira vez, meu nome verdadeiro para aquela tal de “Sininha”. Se é que era “sininha” mesmo. E se fosse um homem se fingindo de mulher? Ri sozinho. Fiquei até com vontade de convidar a misteriosa “Sininha” para conhecer a maravilhosa Terra do Nunca: meu quarto e sala da Avenida Central. Ser solteiro tem suas vantagens e morar sozinho é um viva a liberdade! Prato sujo na pia, cueca no banheiro, toalha molhada no cesto de roupa enxuta, guarda-roupa pelo avesso, lixeira cheia até a tampa, chão melado da última vitamina que eu fiz, dezenas de exames dos alunos do segundo e terceiro ano espalhados pela mesa, pelo sofá e pela cama e ainda ouvir “Como eu quero” do Kid Abelha mais de vinte vezes sem ter ninguém para gritar com você: “Desliga esta merda! ” Já eram quase duas horas da manhã quando dormi, ali mesmo, na sala, embalado pela voz de Paula Toller

Acordei atrasado e sai debaixo de chuva. Consegui pegar o primeiro horário da turma A, depois peguei mais duas na turma C e por fim resolvi elaborar um teste para aplicar na turma B. Fiquei na secretaria até meio-dia. Quando fui saindo, dei de cara no portão principal com ela. A chuva continuava caindo forte. Um pé-d´água tremendo. Sorte que a cobertura do portão protegia da chuva.

- Oi! – Ela sorriu. Parecia mais amável. Bem diferente da primeira vez que a gente se digladiou na sala.

- Olá, Administradora de Empresas! E então? Já sabe fechar um balancete com uma tabela periódica? – Arrisquei uma piada. Era melhor ter sorrido de volta com um “Oi” também.

- Eu precisaria ser em primeiro lugar burra e em segundo professor de química!

Ri meio sem jeito. Mas não me intimidei:

- O que não seria um mau negócio.

Ela foi ainda mais sarcástica:

- Claro! Ganhar pouco, dormir tarde, passar fim de semana corrigindo provas!

- O salário pode não ser bom, mas eu gosto do que eu faço. – Estava sério.

- Hum, um idealista!

- Pelo menos eu tenho uma causa pela qual lutar.

- Eu também. Mas quando a gente chega à velhice, as causas são outras. – Ela me chamou de velho com classe! E eu só tinha 33!

- A falta de argumento é típica da pré-adolescência. – Sentenciei. 

- Então! – Exclamou. E a gente ficou ali, no portão da escola, olhando um para a cara do outro, como se fossem dois lutadores de MMA só esperando a hora do juiz dar o sinal e a gente partir para a briga. Foi até engraçado. Ela foi a primeira a quebrar o silêncio.

- O “velhinho” e a “criancinha” presos por causa da chuva. Vai dar o que falar.

- De jeito nenhum! A última coisa que eu gostaria de ter era uma amizade com uma aluna atrevida, metida e chata. – Fiz uma careta irônica.

- Vou chamar isso de elogio. – Respondeu com outra careta.

- Eu não teria tanta certeza. – Franzi a testa.

- Você não sabe o que está perdendo. – Ela esticou o dedo e tocou no lado direito do meu peito.

Dei de ombros. Aquela direta era uma indireta ou direta? Ou eu entendi tudo errado? Vai saber! Resolvi participar do jogo.

- Eu sei o que NÃO estou ganhando!

- Tem razão. – Concordou. A chuva diminuiu de intensidade. 

- É mesmo?

- Tudo bem. Eu vou indo. – Disse. Em seguida acrescentou: 

- Está ficando tarde. Já são 12:1, vou aproveitar a estiagem. Salomão fica furioso quando chego depois do almoço.

- Seu pai?

- Sim.

- Para que lado você está indo? 

- Zona Norte. Por quê?

- Quer uma carona? 

- Eu pensei que você não queria fazer amizade.

- Mudei de ideia. – Fiz sinal para que ela me acompanhasse. A minha gentileza abriu um precedente. Talvez fosse melhor não ter oferecido a carona. 


(CIDADE, Pawlo. AS DOCES AMARGAS MEMÓRIAS DE PEDRO E ALICE, Editora Mondrongo, Itabuna-Bahia, pp. 20-23).

domingo, 31 de outubro de 2021

O SANTO DE MÁRMORE


 

O Santo de Mármore é um livro publicado em 2013, cujo original nasceu em 1989. Foram mais de quinze anos tentando amadurecer uma história real que eu testemunhei. Narrar a história do nascimento do movimento estudantil organizado em Ilhéus, na Bahia, foi para mim uma experiência incrível. O título do livro foi inspirado na poesia homônima do professor de história José Carlos Galdino, publicado em agosto de 1987, no jornal Diário da Tarde.





sábado, 11 de setembro de 2021

UMA FÁBULA SOBRE AS ELEIÇÕES


ELEIÇÕES NA FLORESTA

Pawlo Cidade

Reino animal: Principais características e divisões - VouPassar


O leão estava confiante. Mesmo depois de ter feito um governo meia boca, graças à ajuda do governador leopardo, foi para a reeleição. Mas seu principal opositor, a jaguatirica, vinha subindo nas pesquisas e atacando de forma ferrenha, as áreas em que o leão tinha deixado a desejar. Sobretudo o Morro das Hienas e as ruas sem calçamento do bairro das raposas. 

Com a intervenção dos abutres, aves de rapina que não se contentavam apenas com as sobras dos felinos, o leão conseguiu fazer acordo com os macacos ladinos, de uma raça de primatas que se achava superior aos demais da própria espécie, com as peçonhentas surucucus e os jacarés oportunistas dos partidos nanicos que ensaiaram campanhas, mas no fundo queriam uma boquinha do governo do leão, caso fosse reeleito. É bem verdade que a pandemia ajudou mais do que prejudicou o pleito eleitoral, pois o leão já tinha sua base e os opositores ainda a estavam construindo. 

Porém, o tempo curto, imposto pelo Tribunal Superior Eleitoral da Floresta, o TSEF, acabou favorecendo quem já estava no poder. E o leão foi reeleito com 40% dos votos de todo o reino animal. Até as zebras, quem diria, votaram no leão, porque este havia prometido não mais comê-las enquanto estivesse no governo. Entretanto, as más línguas, diziam que na calada da lua cheia, mesmo durante o período de campanha, um chimpanzé, que pertencia à raça dos ladinos, flagrou o leão comendo uma zebrinha jovem que depois foi vista, ninguém sabe como, a frente de um dos mais importantes cargos da Secretaria de Assistência aos Bichos. Corria a bocas miúdas e depois passou a ser notícia em todos os jornais, que a zebrinha havia ressuscitado. Portanto, um milagre no reino. Mas como todas as zebras se parecem, a assessoria de comunicação do governo reeleito tratou de chamar o boato de fake news e ficou por isso mesmo.

Em seu segundo mandato, o leão cumpriu logo o acordo que fez com os macacos, elegendo o gorila como líder da câmara para controlar a diversidade que virou o legislativo: um alce, que todos sabiam que era veado; cinco macacos ladinos, sendo três chipanzés, um orangotango e um gorila; uma coruja e dois pardais da oposição; quatro raposas, duas em seu quarto mandato; um leão e um tigre. No fundo, o desafio não estava em controlar a forma de pensar dos nobres edis, mas em conter a fome dos neófitos que sonhavam ocupar todos os cargos do governo, principalmente depois que o leão prometeu recompensá-los pelo apoio a candidatura do gorila. Mas confessou, em segredo, ao chefe de gabinete, o senhor porco, que, provavelmente, não cumpriria a promessa com as zebras, muito menos com os veados, porque sua natureza originária o impedia de conter aquilo que ele mais apreciava. E seu apetite, sem dúvida, era maior que a assinatura de um papel.

Enquanto isso, a sociedade do reino que pagava o preço de ter reelegido o leão, se organizava em conselhos, observatórios e movimentos para complicar o mandato do leão na esperança de se fortalecer para eleger alguém comprometido com os pavões, um grupo espertalhão de falidos que mamaram durante muito tempo nas tetas do governo, bem como os búfalos e os gnus da empoeirada savana que corriam de um lado a outro do pampa sem saber para onde ir. 

No seu mandato, certamente o leão iria enfrentar o barulhento movimento das maritacas pela casa própria, depois que o chefe do executivo mandou derrubar as cinqüentenárias amendoeiras da avenida em prol do desenvolvimento. E também a oposição da aliança que se formou entre as girafas democratas que se autodenominavam de “nova política da floresta” e as combatentes da gordofobia, os hipopótamos; ou ainda a luta solitária do tatu bola que erguia a bandeira de uma cultura que já havia morrido, mas que a todo custo tentava ressuscitar. Ou talvez da campanha pela invasão dos sítios urbanos que vinha ganhando força e era liderada pelos ratos que já ocupavam os esgotos da cidade. 

Ainda bem que tudo isso não passa apenas de uma fábula que, por mais que ela se assemelhe a vida complicada, burocrática e ardilosa do ser humano, será compreendida apenas pelas corujas, eternas vigilantes, mesmo em noites sem lua e sem esperança, que estão o tempo todo a nos espiar.

sábado, 21 de agosto de 2021

DEPOIMENTO DE UM LEITOR SOBRE O TESOURO PERDIDO DAS TERRAS DO SEM-FIM

https://www.facebook.com/csmascarenhas.ios/posts/10215993026858282
O TESOURO DE PAWLO CIDADE 
Carlos Mascarenhas


Gosto muito de ler, e tenho digamos assim, uma mania que é, ao ler um romance de um determinado autor e gostar muito, procuro ler tudo que ele escreveu. Isto já aconteceu com os romances de Jorge Amado, de Érico Veríssimo, de Somerset Maugham, de alguns outros, e agora acontece com os romances de Pawlo Cidade, pois acredito eu que já li tudo que o amigo Pawlo escreveu.

Uma outra mania que tenho é começar a ler um romance, e gostando, lê-lo com alguma rapidez até fim, e depois reler com vagar, fazendo anotações, e descobrindo muitas coisas que na primeira leitura nem tinha percebido. Pois então, digo-lhes que li e depois reli pausadamente O TESOURO PERDIDO DAS TERRAS DO SEM FIM de Pawlo Cidade, gostei muito, e faço a seguir algumas considerações. 

No livro, Pawlo através da fala dos seus personagens, Gambá, Charlie, e Tati, que transitam da Lagoa Encantada até o Rio do Engenho passando pela Mata da Esperança, registra de forma leve, romanceada e bem agradável, muito da nossa geografia, da nossa história, e principalmente descreve as nossas riquezas ambientais e culturais, e faz isto com muito conhecimento e exatidão. Por esta razão fica aqui a sugestão de que este livro passe a fazer parte do currículo das nossas escolas. 

Recomendo aos meus amigos e até aos meus inimigos, caso os tenha (rs.), a compra e a leitura do Tesouro, que pode ser adquirido com o autor, e tenho certeza de que quem fizer isto vai me agradecer pela indicação, e agradecer muito a Pawlo Cidade, por nos ter presenteado com mais este belo romance, no qual ele até se dá ao luxo de citar de maneira jocosa, o Sr. Ananias, um personagem do seu outro romance, O Povoado das Onze Mil Virgens.

Parabéns Pawlo, desculpe os spoilers, e fique certo de que já estou na fila para adquirir o seu próximo romance, que espero não demore. 
Em tempo, digo que estejam os amigos, quando estiverem lendo o livro, preparados para entender e matar charadas. E mais não digo. rs.


Carlos Mascarenhas
Publicado originalmente no Facebook. 

PRÉ-VENDA LIBERADA! "Greta Garbo, quem diria, esteve em Ilhéus!"

  O aguardado livro "Greta Garbo, quem diria, esteve em Ilhéus!", do autor Pawlo Cidade, já está disponível para reserva. Garanta ...