NO DIA EM QUE UM MARCIANO ESTEVE EM ILHÉUS
Pawlo Cidade
O ano era 1963. Na praia da matinha só ia quem conhecia o caminho. Era um lugar secreto, escondido pelos pescadores e pelo boi malhado de seu Eurico que costumava dar carreira nos meninos do alto do morro e que, mais tarde, deu nome ao bairro Malhado.
De lá sim, era uma vista de dar inveja. O mar se abria todo para Ilhéus, numa imensidão que parecia não ter fim. Bem em frente, mais ao norte, uma outra vila de pescadores, a de São Miguel, quase inexplorada. Meu pai e dois amigos combinaram um luau na pedreira, bem abaixo do morro, de frente para o mar. Convidariam duas ou três amigas para compartilhar aquela noite de lua cheia na matinha.
Eles saíram logo que o sol se pôs, para não se perder no caminho. No local, acenderam uma fogueira e cantaram canções de sucesso como “Sonhar Contigo”, de Adilson Ramos, embriagados pelo vinho que os amigos haviam levado. Lá pela meia noite, quando a lua alcançou seu ponto mais alto, e as garrafas de vinho se amontoavam na pedreira, um som estranho percorreu a mata. Parecia um barulho de carro, mas era mais agudo. As meninas se assustaram. Os rapazes, metidos a valentões, entre eles, meu pai, disseram que era o barulho do mar sobre as pedras. Contaram uma história que nem eles mesmo acreditaram. De repente, várias luzes brilharam na direção deles e o barulho ficou mais forte. Parados estavam, parados ficaram quando aquela coisa brilhante sobrevoou a cabeça deles e foi parar na beira do penhasco.
Curiosos, e, ao mesmo tempo, trêmulos, os três caminharam lentamente até a coisa. Mas não tiveram coragem de chegar perto. Observaram de longe o movimento e o barulho que a coisa fazia. Minutos depois, de dentro dela, um homem, pequeno, de braços longos, quase arrastando no chão, saiu. Quando olharam para trás, as três amigas já tinham corrido. Meu pai conta que ele foi o último a correr quando o homenzinho veio na direção deles.
No outro dia, tomados ainda pela curiosidade e pelo medo, voltaram ao local. Não havia sinal de nada. Todavia, foi ali, na praia da matinha, que eles juraram ter visto o marciano. Doravante, a praia da matinha passou a se chamar Praia do Marciano. Do marciano que ninguém mais viu. Se esta história foi verdade ou não, acabou virando ficção.
Pawlo Cidade, escritor e ativista cultural.
Este texto foi publicado originalmente no
site O tabuleiro, em 26 de dezembro de 2017.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Obrigado por sua opinião. Volte sempre.