segunda-feira, 21 de junho de 2010

O EMPRESÁRIO QUE GUARDAVA LIVROS


I


Eu já sentei no chão do banheiro, enquanto via minhas lágrimas se misturarem com a água que escorria pelo chuveiro. Já corri tanto até não agüentar mais. Subi no telhado da vizinha querendo ver a filha dela tomar banho. Já ouvi tantos “nãos” da minha mãe que me tranquei no quarto sem querer falar mais com ninguém. Briguei com o meu pai porque ele não queria que eu fosse a uma festa. Mandei meu avô ir cantar coco só porque ele não me deu dinheiro para comprar um sorvete. Colecionei gibis de super-heróis, selos, botões, tampinhas de refrigerante, sobretudo àquelas que traziam os personagens da Disney e quase que ela ficou completa se tivesse encontrado o Pato Donald.


Um dia, na primeira série, quando voltava para casa, foi acometido por uma diarréia. Não consegui segurar. A escola não ficava muito longe de casa, mas não deu tempo. Andei quase trocando as pernas, enquanto sentia o melado escorrer pelas coxas. Fui chacota de meus irmãos quando cheguei em casa pingando coco. Minha mãe me jogou embaixo do chuveiro e me lavou. Foi um vexame. Sempre tive estes intempestivos intestinais. Acho que meu intestino era frouxo, não agüentava muita comida.

Eu era um aluno esforçado. Estudava em escola pública. Tirava notas sempre na média. Nunca fiz nada de extraordinário até a quarta série primária. Digo até a quarta série porque foi nela, de verdade, que eu compreendi como podia ser alguém na vida. Entretanto, antes de ser o que eu sou, eu conheci a dor, o amor, a decepção, o desespero, a traição, a falsidade. Atributos que a vida nos apresenta e, se você não passa por elas, dificilmente irá compreender o sentido de tudo que lhe cerca.

Aos dez anos meu pai me deu um livro. Numa época em que eu pensava em ser o Super-Homem ou subir pelas paredes feito o Homem Aranha, meu pai, no meu aniversário, me dá um livro de presente. Sorri, peguei o livro e, furioso – não na frente dele – corri para o quarto peguei o bendito e joguei embaixo da cama.

Eu não gostava de ler. Quando lia, a professora quase não ouvia nada. Eu lia tão baixo, que parecia estar sussurrando. Foi numa daquelas leituras coletivas na sala de aula, que lendo baixo, a professora me deu algumas guarda-chuvadas na cabeça exigindo que eu lesse direito. Fiquei com raiva. Não queria mais ler.

Meu pai, então, acreditando estar fazendo a coisa mais legal do mundo, me dá um livro de presente ao invés do Ferrorama que eu via passar na propaganda da TV todos os dias. Eu sonhava com aquela ferrovia de brinquedo, com uma locomotiva a vapor, vários vagões juntos, como o vagão de carvão, de carga, de combustível, de passageiros.

Aquele livro ficou embaixo da minha cama uns três meses. Um dia, quando voltei da escola e joguei a mochila sobre a cama, lá estava ele, sujo pela poeira, mas inteirinho, em cima da cama. Antes de tomar café, minha mãe dissera que havia encontrado ao arrumar o quarto e me disse que meu pai tinha perguntado se eu havia lido. Aquilo me preocupou. Afinal, era um presente e se ele perguntasse sobre a história, sobre se eu tinha gostado ou sobre algum daqueles personagens? Voltei para o quarto pensativo, esperando que a qualquer momento fosse surpreendido pelo papai questionando sobre o livro. Foi aí que ao me deparar com aquele menino em cima de um planeta com uma flor como companhia que eu resolvi ler.


II



Ele me ensinou que o essencial era invisível aos olhos e que eu me tornaria responsável, para sempre, por tudo que um dia em viesse a cativar. Ensinou-me ainda que mais que ter dinheiro ou qualquer outra coisa, bom é ter amigos. Me fez ficar pensando se um carneiro, em algum lugar do universo, tinha ou não comido a rosa, toda vez que eu olhava para as estrelas. Fiquei com vontade de viajar pelo deserto, na África, e ficar debaixo daquela estrela esperando o menino dos cabelos de ouro, encontrá-lo e escrever para o autor dizendo que o Pequeno Príncipe tinha voltado. E eu descobri tudo isso apenas em um único livro.


III



Depois de ler o Pequeno Príncipe, eu saí do quarto correndo para contar ao meu pai tudo que eu havia descoberto. E assim, ao invés de ser surpreendido por ele, eu o surpreenderia contando-lhe aquela história fantástica do menino viajante e indagador. Quando virei o corredor, encontrei minha mãe chorando, na sala, sobre o sofá, sendo consolada pela minha irmã mais velha. Meu outro irmão estava encostado no sofá, com os olhos vermelhos, abraçado pela minha tia. Minha mãe ergueu a cabeça e abriu os braços me chamando. Quando ela me abraçou, eu vi a sala girar. E então, mamãe disse em voz baixa:

“Seu pai foi para um planeta distante”.

Eu não quis saber qual foi o planeta. Só pedi a Deus que o menino dos cabelos de ouro guiasse meu pai pelo universo sem fim. Foi a primeira vez que eu corri sem vontade de parar.



IV


Eu repeti a quarta série por dois motivos: meu pai tinha morrido e não queria mais receber guarda-chuva na cabeça só porque lia baixo. Minha mãe me tirou da escola pela segunda razão e por pouco não deu umas guarda-chuvadas na cabeça de dona Magnólia também, minha professora da quarta série.

Mudamos de bairro e eu mudei de escola. Minha nova professora toda vez que dava uma aula, parecia contar uma história. A escola ficava na periferia, perto da favela que a gente morava. Mas, era organizada. A diretora comemorava os aniversariantes do mês e ainda distribuía bombons e sorvetes para toda a turma.

A professora organizou uma gincana bacana com a turma. O aluno que conseguisse ler mais de três livros numa semana ganharia um fim-de-semana no Iate Clube do município, tudo por conta dela. Eu, que detestava livros, lá estava viajando naquelas histórias de Júlio Verne e Monteiro Lobato. Li Vinte Mil Léguas Submarinas, Reinações de Narizinho, e Emília no País da Gramática e de quebra reli O Pequeno Príncipe. Mas, não bastava dizer que leu os livros, era preciso ir até a frente da turma e contar tudo que tinha lido.

A vontade era tanta de tomar banho de piscina, comer num restaurante chique e brincar no parquinho do Iate Clube que eu não contei conversa. Corri para a frente da sala e comecei a falar. A princípio, estava quase sussurrando, mas depois que a professora disse para contar como se estivesse na história, a boca abriu e eu não quis parar mais. Falei quase a aula inteirinha, até a hora de tocar o sino para o recreio.

Depois daquele dia todos quiseram conhecer as aventuras escritas por Monteiro Lobato e Júlio Verne. Lembro-me ainda de ter visto lágrimas nos olhos da professora quando eu contei a história do Pequeno Príncipe e de como eu imaginava ver meu pai com ele navegando pelas estrelas.

Fiquei conhecido naquela escola como “o menino que contava histórias”. No fim do ano, ganhei um montão de livros bacanas. Cada livro que eu lia, sempre ficava alguma coisa. Fui vencendo as dificuldades que foram se apresentando na minha casa, na escola, na rua, lendo os livros. Certa vez, escapei de uma briga por causa de uma história que eu li. Alguns meninos me achavam chato, porque tirava notas boas e ficava sempre no grupo das meninas bonitas. Eles então me esperaram na saída da escola e planejaram me surrar, para que eu soubesse quem dava as ordens naquele lugar.

- Escuta aqui, pivete. Você se acha o tal, não é? Pensa que pode tudo com as meninas só porque ler um pouco mais que nós? – Disse o grandalhão que usava uma corrente de prata que parecia mais pesada que o pescoço dele.

- Você acaba de estabelecer um conflito, meu amigo. Não há nada que prove que eu me acho, nem tampouco que queira ser melhor que vocês. Eu estudo mais, porque quero ser alguém na vida. Sei mais, não porque sou mais esperto, mas porque leio mais. Se você ler mais, certamente você também saberá mais. Que vantagem você terá em me surrar pra mostrar quem você é, se todos já sabem? Quer se mostrar para alguém, diga a ela o que você sente, não como você faz.
O grandalhão ficou me olhando tentando entender.

- Você tá me zoando, cara? – Ele bradou.
- Não, estou querendo apenas ser seu amigo. – E estendi a mão.

Por pouco o outro estendeu a mão também. Mas, ele achou que a força era mais importante que o diálogo. Resultado: eu terminei o ginásio, ele abandonou a escola.


V



Meu quarto era também minha biblioteca. Nossa casa era pequena, não havia muito espaço. Então, construi umas prateleiras e fui guardando os livros que ganhava e que consegui comprar quando comecei a estagiar no Ensino Médio. À noite, quando dobrava o travesseiro e pegava um livro novo para ler, eu olhava para as prateleiras repletas de livros e pensava comigo:
E depois? Faço o que com todos vocês?

Eu estava diante dos autores, das histórias, dos contos que me ajudaram a chegar onde cheguei. Não podia ficar com eles só pra mim. Eu precisava sair dali e contar para todo mundo que meus melhores amigos me ensinaram a vencer.

Assim, quando terminei o Ensino Médio montei uma biblioteca comunitária no bairro, que funcionou na sala de casa. Depois, passei no vestibular, fechei a biblioteca, porque precisava pagar os estudos. Mas, a ideia de compartilhar aqueles ensinamentos não me saía da cabeça. Resolvi fazer Administração. E foi o que eu fiz.

(CONTINUA...)

terça-feira, 25 de maio de 2010

SEMANA DIFÍCIL


Pois é, caros amigos do solilóquio. Esta semana tem muito trabalho. A Caravana Cultural no bairro do Iguape - projeto que eu coordeno; estou em campanha para uma das cadeiras da Academia de Letras de Ilhéus; produzindo o Bahia de Todas as Letras com Gustavo - evento que acontece no próximo dia 02 de junho, no Teatro Municipal de Ilhéus; respondendo às diligências do Edital Jurema Penna - que tem que entregar até dia 27; tendo que fazer release de projeto Maio Mês da Dança, Rede Motiva, etc. Mas, com as graças do bom Deus vou driblando as dificuldades e vencendo as barreiras. Pra completar, ainda recebi uma encomenda da Ícaro Comunicação para produzir um texto e... ah, estou ainda na produção de um comercial ucraniano que deverá ser gravado no próximo fim-de-semana. Quer mais? Assim minha mulher não aguenta.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

GANHE INGRESSOS PARA ASSISTIR "AS AVENTURAS DE JOÃO E MARIA"


PROMOÇÃO JOÃO E MARIA
REGULAMENTO


1. Para participar da promoção envie um e-mail para o endereço: asaventurasdejoaoemaria@hotmail.com respondendo a pergunta: "Quais são as crianças mais famosas dos contos de fadas?"
2. Só é válido um e-mail por vez.
3. Serão sorteados 25 (vinte e cinco) ingressos casados. Ou seja, cada ingresso da direito a um acompanhante. Cada sorteado terá direito a um par de ingressos que poderão ser usados no dia 06 ou 07 de março de 2010, às 17:00 horas, no Teatro Municipal de Ilhéus.
4. O sorteio será realizado às 19:00 horas do dia 04/03/2010 no Teatro Municipal.
5. Promoção válida de 18 de fevereiro de 2010 a 04 de março de 2010.
6. Os ingressos deverão ser retirados na bilheteria do Teatro Municipal de Ilhéus até uma hora antes da apresentação.
7. A lista dos ganhadores será publicada no blog: http://www.aventurasdejoaoemaria.blogspot.com/
8. Os vencedores também receberão e-mail confirmando o prêmio.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

ESTE É O ELENCO SELECIONADO DE JOÃO E MARIA

Em pé estão Andréa Bandeira (Cangaço), Rafael Silva (A Bruxinha que era boa), Val Kakau (Cangaço), Aninha Bandeira, Ciro Nonato e Ed Paixão (Cangaço). Para saber mais detalhes da peça acesse o blog: www.aventurasdejoaoemaria.blogspot.com

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

NOVOS PROJETOS

O audiobook ou audiolivro se tornou uma grande alternativa de mercado
Além da peça infantil "As Aventuras de João e Maria", alguns outros projetos estão permeando minha cabeça neste ano de 2010. Se 2009 foi bom, 2010 será melhor ainda. Entre eles está a transformação de "O Tesouro Perdido das Terras do Sem Fim" em audiolivro. Acabei de enviar um projeto para o Fundo de Cultura. Vamos aguardar o resultado. Por falar em resultados, até hoje ainda não saiu o resultado do Edital de Circulação de Teatro Jurema Penna. Estamos concorrendo com o projeto "Na Trilha de Lampião". Foram habilitados na primeira etapa 41 projetos. O nosso está na lista.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

A BATALHA DOS NADADORES tem nova ilustração


As ilustrações feitas por Bruno Santana para o meu mais novo livro "A Batalha dos Nadadores", que estará em breve no mercado, estão na reta final. Assim que todas ficarem prontas mostrarei aqui no blog. Onde elas se encaixam no livro que deverá ser destinado à 3a e 4a séries do ensino fundamental vocês só ficarão sabendo quando comprarem o exemplar.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

UFA! TERMINEI DE ESCREVER "AS AVENTURAS DE JOÃO E MARIA". Agora vou selecionar o elenco.

Estudo do possível cartaz

Baseado no clássico conto de fadas, João e Maria, escrito por Hansel e Gretel e coletado pelos irmãos Grimm, esta história ganha uma versão diferente. Querendo impressionar o amigo e cientista Doutor Otavius, João compra um livro de mágicas. Mas é convencido por um palhaço a experimentar o pirulito mágico que pode levá-lo a casa da Vovó Zilda, a fantástica gorda dos doces. Desconfiada, Maria faz de tudo para impedir que o irmão experimente o pirulito. Contudo, ambos acabam sendo enganados pelo palhaço Minduim e são sequestrados.
Eles são levados para a casa da Vovó Zilda. Ao contrário do que imaginavam, eles não comem doces, mas serão transformados em guloseimas para abastecer o mercado europeu. Para se livrar das garras da malvada Vovó Zilda, eles contam apenas com a ajuda da cachorra Baleia e do Doutor Otavius, que enfrentarão Curupira, ìndios e cobras para salvar as crianças.

PRÉ-VENDA LIBERADA! "Greta Garbo, quem diria, esteve em Ilhéus!"

  O aguardado livro "Greta Garbo, quem diria, esteve em Ilhéus!", do autor Pawlo Cidade, já está disponível para reserva. Garanta ...