Academia de Letras de Ilhéus, dia 7 de outubro de 2022
Espaço Seu Zezinho, Barra Grande - Península de Maraú
Livraria Atlântica, Shopping Boulevard, Vitória da Conquista
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REALISMO MÁGICO BRASILEIRO NO SÉCULO XXI:
RIO DAS ALMAS, DE PAWLO CIDADE
Ivo Korytowski*
Por que esse oximoro “realismo mágico” ou “realismo fantástico”? O que é real não é mágico/fantástico, e vice-versa. Por que não simplesmente “fantasia” ou “literatura fantástica”? Porque, ao contrário das obras quintessencialmente fantásticas, o romance não tem por cenário um ambiente irreal: uma Nárnia, uma Terra de Oz, uma Liliput. As histórias do realismo mágico costumam transcorrer em cidades interioranas típicas de algum país latino-americano, cidades que por suas características, pelo perfil de sua população, poderiam perfeitamente existir. Só que, em meio à rotina cotidiana de pessoas aparentemente normais – não são seres mitológicos, chifrudos, alados, com um olho na testa, é gente como a gente – eventos fantásticos começam a acontecer do nada, como se normais fossem. Esta é a lógica do realismo fantástico, que o distingue do puro romance de fantasia ou do puro romance realista (ou naturalista). Ou, segundo a Enciclopédia de Literatura Merriam Webster, “fenômeno literário latino-americano caracterizado pela incorporação de elementos fantásticos ou míticos, como se fossem reais, a uma ficção que normalmente seria realista. O termo foi aplicado à literatura no final da década de 1940 pelo romancista cubano Alejo Carpentier, que reconheceu a tendência dos contadores de histórias tradicionais de sua região, bem como de escritores contemporâneos, de iluminar o mundano por meio do fabuloso.” (verbete magic realism; tradução minha)
Na segunda metade do século XX, a América Latina de língua espanhola foi pródiga em autores do realismo fantástico ou mágico, alguns com projeção internacional: Julio Cortázar, Gabriel Garcia Márquez, Isabel Allende, etc. Já no Brasil, onde o modernismo dominou o ambiente literário por mais de meio século, o realismo mágico se manifestou mais na teledramaturgia, em novelas de televisão de enorme sucesso como Saramandaia, Roque Santeiro, O Bem Amado. Mas eis que, em plena segunda década do “século seguinte”, o pedagogo e dramaturgo natural de Ilhéus, Bahia, Pawlo Cidade surpreende-nos com esta obra de realismo mágico/fantástico Rio das Almas.
Bem escrito, imaginação a pleno vapor, poder descritivo, vocabulário rico. O autor se diz influenciado por (entre outros) Jorge Amado e Gabriel Garcia Márquez. A história começa em 9 de fevereiro de 1968, plenos anos sessenta, quando o realismo mágico latino-americano galgava listas de best-sellers mundo afora.
A trama gira em torno do “funcionário do governo” Pedro Perigot, “um dos maiores hidrólogos do país”, que, a mando do governo, viaja em sua camioneta até Rio das Almas, o povoado que não estava no mapa, palco no passado de um massacre de índios juma – passando no caminho pelo Vale dos Absurdos, onde uma vez por ano o sol brilha em plena meia-noite – a fim de pesquisar o poder medicinal de suas águas. A própria mãe de Pedro havia sido miraculosamente curada de uma doença terminal por uma garrafa do líquido (“A Magnólia Parigot [...] destruída pela doença dava lugar a uma mulher jovem, bonita”), levando o filho a se dedicar ao estudo medicinal da água de Rio das Almas. “Se dizia em Betânia e em todas as cidades circunvizinhas que a água era a principal responsável pela longevidade dos seus habitantes. Apesar dos rios atravessarem toda a região, apenas Rio das Almas não registrava mortes nos últimos dezenove anos. Dizia a lenda que beber na nascente do rio das Almas prolongaria a vida [...]”.
Assim que chega lá, Pedro presencia uma cena de dimensões bíblicas: a ressurreição do velho Deocleciano. Antigo funcionário público que administrava a estação de tratamento de águas, leitor dos grandes filósofos da humanidade, após várias tentativas de suicídio a fim de desafiar Deus, enfim conseguira seu intento à vista de todos, quando tentava provar que não conseguiria. Mas no momento da chegada de Pedro, para o espanto de todos, Deocleciano ergue-se do caixão. Até o Repórter Esso relatou o prodígio: um homem voltara dos mortos num povoado perdido no mapa. A morte abandonara Rio das Almas. A morte foi aniquilada de Rio das Almas.
O autor brinca com a fantasia da abolição da morte com que já brincara antes Orígenes Lessa, em A desintegração da morte, e José Saramago em As intermitências da morte. O inusitado é a regra aqui. Já no capítulo de abertura deparamos com o primo Duas Caras, metade do rosto queimado de sol, metade não; o andarilho Miguel que por mais calor que faça nunca bebe água, e sempre alcança a camioneta, por mais que esta se adiante; Dona Santaninha, cujo marido tenta esticá-la para ficar tão alta quanto ele; a família de olhos violetas, etc.
O autor faz desfilar pelo romance uma galeria de personagens incomuns. O torneiro Jafé que trai a esposa com a própria sogra e que também acaba ressuscitando. Francisco Lino, o Chico Rola, que após duas décadas de impotência vê-se acometido de um priapismo persistente e doloroso. Maria Marta Encarnação, cujo marido prometeu que “Se você não for ao mar, o mar virá até você!”. Andrezinho, o menino com trejeitos de afeminado que, atormentado pelo pai, aparentemente foge de casa. Zé Romão e Cícero Paulada, “os mais hábeis magarefes de Rio das Almas”. Os burros Cosme e Damião, sobreviventes do desmoronamento da mina, cuja morte desencadeia a discussão de se possuíam alma como os humanos...
Na segunda parte a narrativa, compassada de início, adota um ritmo frenético e paroxístico, onde o elemento realista explode em crimes e pecados abomináveis, e o elemento mágico, em prodígios inauditos.
Era uma vez, um povoado chamado Rio das Almas.
* Ivo Korytowski é escritor, tradutor consagrado (tendo traduzido 195 livros), lexicógrafo, filósofo pela UFRJ, pesquisador da história do Rio, blogueiro e Youtuber. Nasceu no Rio de Janeiro em 1951 e desde 2019 mora em São Paulo.

Relacionamentos que começam com experiências públicas nunca dão certo. O meu tinha tudo para dar errado. Eu era seu professor, apesar de ela ser uma garota madura para sua idade: “Inteligente, sarcástica e rebelde”. Eu confesso que nunca fui tão feliz. E como sofri tanto!
Fechei o notebook depois de dizer, pela primeira vez, meu nome verdadeiro para aquela tal de “Sininha”. Se é que era “sininha” mesmo. E se fosse um homem se fingindo de mulher? Ri sozinho. Fiquei até com vontade de convidar a misteriosa “Sininha” para conhecer a maravilhosa Terra do Nunca: meu quarto e sala da Avenida Central. Ser solteiro tem suas vantagens e morar sozinho é um viva a liberdade! Prato sujo na pia, cueca no banheiro, toalha molhada no cesto de roupa enxuta, guarda-roupa pelo avesso, lixeira cheia até a tampa, chão melado da última vitamina que eu fiz, dezenas de exames dos alunos do segundo e terceiro ano espalhados pela mesa, pelo sofá e pela cama e ainda ouvir “Como eu quero” do Kid Abelha mais de vinte vezes sem ter ninguém para gritar com você: “Desliga esta merda! ” Já eram quase duas horas da manhã quando dormi, ali mesmo, na sala, embalado pela voz de Paula Toller.
Acordei atrasado e sai debaixo de chuva. Consegui pegar o primeiro horário da turma A, depois peguei mais duas na turma C e por fim resolvi elaborar um teste para aplicar na turma B. Fiquei na secretaria até meio-dia. Quando fui saindo, dei de cara no portão principal com ela. A chuva continuava caindo forte. Um pé-d´água tremendo. Sorte que a cobertura do portão protegia da chuva.
- Oi! – Ela sorriu. Parecia mais amável. Bem diferente da primeira vez que a gente se digladiou na sala.
- Olá, Administradora de Empresas! E então? Já sabe fechar um balancete com uma tabela periódica? – Arrisquei uma piada. Era melhor ter sorrido de volta com um “Oi” também.
- Eu precisaria ser em primeiro lugar burra e em segundo professor de química!
Ri meio sem jeito. Mas não me intimidei:
- O que não seria um mau negócio.
Ela foi ainda mais sarcástica:
- Claro! Ganhar pouco, dormir tarde, passar fim de semana corrigindo provas!
- O salário pode não ser bom, mas eu gosto do que eu faço. – Estava sério.
- Hum, um idealista!
- Pelo menos eu tenho uma causa pela qual lutar.
- Eu também. Mas quando a gente chega à velhice, as causas são outras. – Ela me chamou de velho com classe! E eu só tinha 33!
- A falta de argumento é típica da pré-adolescência. – Sentenciei.
- Então! – Exclamou. E a gente ficou ali, no portão da escola, olhando um para a cara do outro, como se fossem dois lutadores de MMA só esperando a hora do juiz dar o sinal e a gente partir para a briga. Foi até engraçado. Ela foi a primeira a quebrar o silêncio.
- O “velhinho” e a “criancinha” presos por causa da chuva. Vai dar o que falar.
- De jeito nenhum! A última coisa que eu gostaria de ter era uma amizade com uma aluna atrevida, metida e chata. – Fiz uma careta irônica.
- Vou chamar isso de elogio. – Respondeu com outra careta.
- Eu não teria tanta certeza. – Franzi a testa.
- Você não sabe o que está perdendo. – Ela esticou o dedo e tocou no lado direito do meu peito.
Dei de ombros. Aquela direta era uma indireta ou direta? Ou eu entendi tudo errado? Vai saber! Resolvi participar do jogo.
- Eu sei o que NÃO estou ganhando!
- Tem razão. – Concordou. A chuva diminuiu de intensidade.
- É mesmo?
- Tudo bem. Eu vou indo. – Disse. Em seguida acrescentou:
- Está ficando tarde. Já são 12:1, vou aproveitar a estiagem. Salomão fica furioso quando chego depois do almoço.
- Seu pai?
- Sim.
- Para que lado você está indo?
- Zona Norte. Por quê?
- Quer uma carona?
- Eu pensei que você não queria fazer amizade.
- Mudei de ideia. – Fiz sinal para que ela me acompanhasse. A minha gentileza abriu um precedente. Talvez fosse melhor não ter oferecido a carona.
(CIDADE, Pawlo. AS DOCES AMARGAS MEMÓRIAS DE PEDRO E ALICE, Editora Mondrongo, Itabuna-Bahia, pp. 20-23).
O Santo de Mármore é um livro publicado em 2013, cujo original nasceu em 1989. Foram mais de quinze anos tentando amadurecer uma história real que eu testemunhei. Narrar a história do nascimento do movimento estudantil organizado em Ilhéus, na Bahia, foi para mim uma experiência incrível. O título do livro foi inspirado na poesia homônima do professor de história José Carlos Galdino, publicado em agosto de 1987, no jornal Diário da Tarde.
O aguardado livro "Greta Garbo, quem diria, esteve em Ilhéus!", do autor Pawlo Cidade, já está disponível para reserva. Garanta ...